terça-feira, 21 de maio de 2013

A Esquerda Lamechas

Hoje foi anunciada uma recolha de alimentos para os trabalhadores da CARRIS. Mais, ficámos a saber, sem espanto, que os únicos empregos criados são de salários abaixo do salário mínimo, ou seja, o salário mínimo está a descer para algo em torno dos 300 euros de facto. Há 10% dos portugueses que trabalha mas não ganha o suficiente para viver – nos meios académicos na Europa a coisa começa a ser tão comum que onde trabalho já se cunhou o conceito - working poor, os que trabalham mas ganham abaixo do limiar de subsistência. Rui Mauro Marini chamou-lhe no Brasil há muitos anos «super exploração», isto é, a força de trabalho ao fim do dia não é reposta (não recebe o suficiente para no dia seguinte conseguir ir trabalhar) mas exaurida. O resto do salário é completado com o recurso à caridade que usa os fundos dos próprios trabalhadores (segurança social).
Estive nas últimas semanas em vários debates com Paulo Morais, membro do PSD, vice presidente da TI, onde em todos os debates, depois de uma exposição absolutamente brilhante, clara e etalhada sobre a corrupção (recordo que é investigador de matemática na FEUP), pede, entre outras medidas, a expropriação de todos os bens dos «cavalheiros que nos andaram a roubar» a exigência que as casas dos fundos imobiliários paguem IMI (seria quase 1% do PIB) e disse-o, para quem queria ouvir, o património não usado deve ser expropriado: use it or lose it. Disse mesmo que em vez de incomodar 3 milhões de pessoas o Governo tem que incomodar 3 pessoas – António Mota, Ricardo Espírito Santo e Vasco Melo, detentores de 95% das PPPs. Terminou a exposição explicando que no passado já tiveram que se cortar cabeças e que muitos peixes pequenos alimentam um peixe grande mas basta um peixe grande para dar alimento a muitos peixes pequenos. Tudo isto PM já o disse, sem rodeios e frases de pompa, na TV e nos jornais dezenas de vezes.

É totalmente inútil virem os militantes do BE e do PCP e do PS dizerem que há algo semelhante nos seus programas porque nos seus programas há de tudo, como na farmácia, dizia o velho ditado. A questão é, em que campanha se fixam estas organizações e se o fazem com um estilo ofensivo, aguerrido, que deixa esperança às pessoas ou se o fazem neste tom lamechas e de queixume que é o mote dos dirigentes políticos como Louçã e Jerónimo de Sousa. Este fado dos derrotados, que é óbvio que não estão convencidos que podem vencer e portanto não convencem ninguém que é possível ganhar. Um fado que me faz pensar se é só um problema de estilo ou se é Paulo Morais que foi para a esquerda enquanto a esquerda foi para direita.

Raquel Varela in 5 dias