sábado, 18 de maio de 2013

Criação de uma nação inovadora

Em tempos dependente do sucesso da Nokia nas telecomunicações, a Finlândia diversificou a economia e colocou a criação de novas empresas no centro do seu futuro. O próximo desafio será manter no país esta nova geração de empresários. Excertos.


Em 2010, um grupo de alunos da Universidade de Aalto, perto de Helsínquia, lançou a iniciativa estudantil mais construtiva da história, no género. Os membros do grupo converteram-se ao poder do espírito empresarial durante uma visita ao Massachusetts Institute of Technology. Quando regressaram ao seu país, organizaram um "verão de start-ups" com o objetivo de defender a ideia de que o futuro da Finlândia assentava nas novas empresas e não nos velhos gigantes. Esse verão de start-ups transformou-se num período de inovação.
A Start-Up Sauna – um agilizador de serviços para empresas, ainda gerido por jovens entusiastas mas agora financiado pelo Governo, pelo setor empresarial e pelo mundo académico – está instalada num armazém degradado, próximo da Universidade. Disponibiliza um vasto leque de serviços: espaço de trabalho, formação para jovens empresários, viagens de estudo a Silicon Valley e uma série de oportunidades de ligação em rede (inclusive nas muitas saunas da Sauna).
Governo e o mundo empresarial
Os patrões da Sauna possuem um entendimento do espírito empresarial bastante avançado para a sua idade. Reconhecem que a inovação é mais importante que a alta tecnologia: a Sauna também tem oficinas de design e de tricô. Entendem a importância de reduzir a distância que separa a técnica do design. Percebem que promover o espírito empresarial tem tanto a ver com mudar a cultura como com disponibilizar dinheiro. Têm os olhos postos na Rússia e nos Estados bálticos e, também, em Boston e São Francisco.
A revolução estudantil fez parte de uma análise mais vasta da relação adequada entre Governo e mundo empresarial. Essa análise começou em 2008, quando o Governo finlandês reorganizou as universidades (e criou Aalto), numa tentativa de promover a inovação. Mas foi acelerada pelos problemas da Nokia. A Finlândia tornara-se perigosamente dependente desta única empresa: em 2000, a Nokia era responsável por 4% do PIB do país. O Governo queria tornar tão indolor quanto possível o declínio do gigante dos telemóveis e garantir que a Finlândia nunca mais voltaria a ficar tão dependente de uma única empresa.
Empresas com potencial de cresimento
Os finlandeses criaram um organismo de inovação e tecnologia chamado Tekes, que tem um orçamento anual de €600 milhões e emprega 360 pessoas. Também criaram um fundo de capital de risco, o Finnvera, para ajudar empresas em fase de arranque. O elemento central do seu sistema de inovação é constituído por uma série de agilizadores de serviços para empresas, cofinanciados pelo Governo e pelo setor privado, que operam em todas as áreas empresariais importantes e oferecem aconselhamento e apoio de empresários experientes e de investidores providenciais [angel investors] a empresas com um potencial elevado de crescimento.
Devido a tudo isto, a Finlândia tornou-se um país muito mais orientado para o mercado e para os empresários. Produziu um número impressionante destart-ups, entre as quais 300 criadas por antigos empregados da Nokia. A Microtask subcontrata trabalho de escritório. A Zen Robotics é especializada em reciclagem de equipamentos automáticos. A Valkee fabrica um dispositivo que combate os estados depressivos, injetando luz intensa no canal auditivo. O país também possui agora os equipamentos necessários ao funcionamento de um cluster tecnológico, como um blogue especial (Arctic Startup) e um nome evocativo (Arctic Valley). Agora, é frequente ouvir-se que a queda da Nokia foi "a melhor coisa que alguma vez aconteceu a este país".

Indústria de jogos de vídeo
A nova Finlândia está especialmente orgulhosa da sua florescente indústria de jogos de vídeo, desenvolvida por empresas de sucesso como a Rovio Entertainment, produtora de Angry Birds e grande apoiante da Start-Up Sauna, e a Supercell, produtora de Clash of Clans. Muitos dos empresários mais interessantes da região atuam no limite inferior da tecnologia, em muitos casos para ajudar os pais de família a resolver problemas práticos ligados à conciliação de um emprego a tempo inteiro com a vida familiar. Niklas Aronsson, cofundador de uma empresa chamada Linas Matkasse, aplicou a ideia do faça você mesmo, da IKEA, aos jantares em família. Entrega embalagens com todos os ingredientes necessários para uma refeição, cortados e prontos a cozinhar.
Monica Lindstedt, fundadora da Hemfrid, também trabalha na área de venda de tempo. Fez da sua empresa um gigante das limpezas, aplicando a gestão profissional às limpezas domésticas. A Hemfrid convenceu o Governo a considerar a limpeza doméstica um benefício dedutível nos impostos, como um automóvel da empresa. A Hemfrid tem agora dez mil clientes habituais e 1326 empregados, 70% dos quais nascidos no estrangeiro.

Geração de campeões mundiais
Apesar de toda esta energia empresarial, a região nórdica ainda tem dificuldade em fazer das start-ups empresas com um tempo de vida longo. São demasiados os exemplos de empresários bem sucedidos que abandonaram tudo e foram para outro sítio. Entre eles incluem-se não apenas pessoas de geração do pós-guerra, como o fundador do gigante IKEA, Ingvar Kamprad (que vive na Suíça), e o fundador da grande empresa do setor das embalagens Tetra Pak, Hans Rausing (que foi viver para Inglaterra), mas também membros da geração jovem. E são ainda demasiadas as start-ups que optam pela venda da empresa a multinacionais estrangeiras (sobretudo norte-americanas), em vez de se tornarem campeões locais.


Ainda assim, há motivos para ter esperança que, desta explosão empresarial, saia também uma nova geração de campeões mundiais. Os empresários da região têm hipóteses de se tornarem magnatas mundiais pela mesma razão que Ingvar Kamprad: porque podem aproveitar a vaga da evolução demográfica. E os empresários da região que trabalham no setor da alta tecnologia têm possibilidade de fundar empresas de longa duração, porque, além de criarem empresas, também dominam a tecnologia.