quarta-feira, 29 de maio de 2013

Gdańsk e os russos

Nunca houve tantos russos em Gdańsk desde a primavera de 1945. São principalmente habitantes da região de Kaliningrado, que fazem compras na Polónia. Um comércio que atinge cerca de €20 milhões por mês.


Os tanques de guerra deixaram lugar aos autocarros e aos carros matriculados “39”, que representam a região de Kaliningrado. Já não deixam a cidade de Gdańsk com os braços carregados com troféus de guerra, mas com sacos de compras, para grande satisfação dos comerciantes locais.
“Fazemos excelentes compras”, admite Tatiana Babak, que acaba de sair do Ikea, enquanto coloca sacos cheios de compras na mala do seu carro. Veio a Gdańsk com Władimir Poliakov, o amigo taxista. 130 quilómetros só a ida. O gasóleo russo é barato: 3 zł [€0,72] o litro, é uma viagem low cost. Tatiana vai a Trójmiasto (uma aglomeração portuária composta por Gdańsk, Sopot e Gdynia) pelo menos uma vez por mês, Władimir faz o trajeto mais vezes.
“Aqui é tudo mais barato”, explica, “à exceção da gasolina. O leite, os legumes, os produtos de limpeza, as fraldas ficam entre duas a duas vezes e meia mais baratos. Até as bebidas alcoólicas compensam mais. O preço é acessível, há mais escolha e pelo menos temos a certeza de que não estamos a lidar com produtos adulterados. Além disso, é uma região linda, e as pessoas são geralmente abertas e simpáticas. É um sítio onde nos sentimos bem”.
A chegada em massa de residentes de Kaliningrado a Gdańsk tornou-se possível com a introdução, no verão do ano passado, de um regime fronteiriço específico chamado “pequeno tráfego fronteiriço”, na sequência do acordo assinado em dezembro de 2011 por ambos os governos e ratificado seis meses depois.
Doravante, os russos apresentam no consulado polaco sedeado em Kaliningrado um pedido para circular no âmbito do regime do pequeno tráfego fronteiriço e, após dois meses, recebem uma autorização válida durante dois anos.

Viagem é uma primeira necessidade

“A nossa cooperação tem sido um êxito e desejamos que este sucesso se torne um argumento nas nossas discussões com Bruxelas, favorável à supressão dos vistos para os cidadãos russos que desejam entrar na UE”, explica o Cônsul-geral russo Sergei Puchkov. “Temos muitos projetos de cooperação no setor económico, cultural, universitário e desportivo. Os polacos estão ajudar-nos com os preparativos do Campeonato do Mundo de Futebol de 2018”, recorda o Cônsul.
Há mais de seis meses que, todos os fins de semana, cerca de trinta autocarros e várias centenas de veículos afluem para os centros comerciais de Gdańsk. Há de tudo: pequenos comerciantes, operários, estudantes, professores, funcionários. Mais do que uma distração luxuosa, esta viagem é, para todos eles, uma primeira necessidade.
A Polónia tem 210 km de fronteira terrestre com a Rússia e 22 km de fronteira marítima no nordeste do país. O enclave de Kaliningrado tem uma superfície de 13 mil km² e uma população de 950 mil pessoas. Faz fronteira com a Lituânia no Norte e no Leste, com a Polónia no Sul e é banhado pelo Mar Báltico no Oeste.
Cerca de dois terços da população do enclave vivem em Kaliningrado, a capital, criada após a Segunda Guerra Mundial, no local onde estava a antiga cidade alemã de Königsberg, chamada Królewiec pelos polacos. Completamente destruída durante a guerra, a cidade foi mais tarde reconstruída num estilo soviético. O mapa das ruas mudou totalmente, sendo hoje em dia impossível reconstituir, até mesmo aproximadamente, o trajeto diário do habitante mais famoso de Königsberg, Emmanuel Kant. Felizmente, foram conservadas as ruínas da antiga catedral com o túmulo do filósofo, tornando-se umas das poucas atrações turísticas do Kaliningrado pós-soviético.

Audi 100
A estadia dos polacos que atravessam a fronteira dura em média duas horas, dedicadas principalmente ao comércio do combustível.
Segundo Sergei Puchkov, o comércio fronteiriço do combustível é muito organizado: “dos cem veículos que esperam na fila da fronteira, cerca de 90 pertencem a polacos da região fronteiriça. Utilizam um tipo de carro muito específico: o Audi 100.” “Porquê? Por ter um enorme depósito, que pode conter cerca de 100 litros”, explica Puchkov.
A embaixada russa em Varsóvia sugeriu às autoridades polacas que criassem uma via especial para esses turistas, poupando assim aos outros passageiros uma fila de espera interminável. “Responderam-nos que seria contrária às regras”, relata Puchkov. “Que todos devem ter os mesmos direitos.”

Salsichas caras
Como é possível o preço de um simples iogurte comprado de um lado da fronteira duplicar depois de se atravessar a fronteira?
Adam Hlebowicz, autor de um guia turístico sobre Kaliningrado publicado recentemente, explica claramente o cerne da questão. “De onde vêm estes preços? Era, para mim, um verdadeiro mistério, até os comerciantes de Kaliningrado me explicarem que os preços incluíam os custos da… extorsão, que beneficia funcionários locais.”
A abertura da fronteira polaca começou a causar perdas consideráveis para as lojas russas. Segundo o relatório do portal de informação Kaliningrad.ru, o governador chegou mesmo a perguntar recentemente aos seus ministros se a diferença do preço de uma mesma salsicha de um lado e de outro da fronteira era justificada. A resposta foi curta e punha em causa as margens excessivas das grandes empresas de distribuição.

20 milhões de euros por mês
A corrupção é um problema sistémico na Rússia. Não se trata de criminalidade organizada no sentido ocidental do termo. Já na época dos czares prevalecia o sistema universalmente aceite de “aquisição”. O funcionário de Estado recebia um salário modesto porque, segundo uma regra não escrita, iria completá-lo “por baixo da mesa”.
Sendo os suecos intransigentes relativamente à corrupção, o Ikea demorou anos para finalizar um contrato que lhe permitiria construir uma loja em Moscovo, por recusar pagar uma quantia substancial exigida “por baixo da mesa”.
Toda a Rússia sofre de uma extorsão de fundos organizada. Os habitantes de Kaliningrado ficaram numa situação muito particular: compensa-lhes mais fazer compras na Polónia. Os benefícios vão para as empresas polacas. Não dispomos de dados exatos, mas estimamos que todos os meses o enclave perde cerca de €20 milhões, investidos na Polónia.