domingo, 19 de maio de 2013

O Sionismo e Jerusalém - Parte 1

O período anterior ao Sionismo político


O Sionismo é o antigo anseio dos Judeus de regressarem à sua terra ancestral como um povo livre e independente. O Movimento Sionista é a expressão política desse anseio, sendo por isso um movimento de autodeterminação1. 
O sentimento sionista teve a sua primeira manifestação no exílio da Babilónia, no século VI a.C. após a destruição do Primeiro Templo de Jerusalém: Junto aos rios de Babilónia nos assentámos e chorámos, lembrando-nos de Sião2. Sião, um dos montes de Jerusalém, o símbolo e sinónimo da cidade e até da Terra de Israel, deu inspiração à vontade indomável de independência e liberdade do Povo Judeu. 
Depois do exílio da Babilónia o sentimento sionista voltou a fazer-se sentir quando o Povo Judeu perdeu a sua pátria ancestral e foi forçado a uma segunda Diáspora no ano 70 d.C.. Os Judeus espalharam-se pelo mundo mas ansiaram sempre por um regresso a Sião (Jerusalém). Durante dois mil anos a oração “Se eu te esquecer, Jerusalém, que a minha mão direita me esqueça!” foi símbolo da fidelidade e da ligação do Povo Judeu a Jerusalém e à Terra de Israel. Judeus que nunca tiveram a menor hipótese de vislumbrar um regresso faziam todos os anos um voto, pela altura da Páscoa, de se encontrarem “para o ano em Jerusalém”. Nos lares religiosos era costume deixar sempre por pintar uma pedra a fim de recordar a Cidade Santa, e nos casamentos o noivo esmagava um vidro com o pé direito em sinal de dor pela destruição do Templo3.
O desejo de retorno acalentou e reconfortou os Judeus nas suas duas longas e difíceis diásporas. O sionismo ainda não tinha sido definido, mas já existia: era essencialmente religioso e tinha uma forte ligação a Jerusalém. Na segunda Diáspora, ao longo de quase dois milénios, o retorno não passou de um sonho, pois Jerusalém esteve sempre sob domínio estrangeiro: primeiro do Império Romano, depois do Califado e por fim do Império Otomano. Até ao século XIX foram poucos os judeus que conseguiram regressar a Sião. Em meados do século XIX apenas havia 10 mil judeus na Terra de Israel, 8000 dos quais em Jerusalém4.
Ao longo da segunda metade do século XIX o sentimento nacional judaico esteve em constante crescimento e a atração pela terra ancestral começou a ser cada vez mais forte. Muitos Judeus tomaram nessa altura consciência da sua condição de povo sem Estado.
O surgimento do antissemitismo, especialmente contra os judeus da Europa Oriental, teve como consequências a procura de uma solução nacional para o problema judaico e a imigração para a Palestina. Grande parte desta primeira imigração dirigiu-se a Jerusalém e os judeus passaram a constituir a maioria da população da cidade a partir do ano de 1850. Entre 1864 e 1889 o seu número triplicou atingindo os 25 mil5(contra 14 mil árabes) e Jerusalém transformou-se no centro judaico da Palestina. Tal facto evidencia bem a importância da cidade para o sionismo religioso antes da sua passagem a movimento político organizado.
Assim, neste período anterior ao surgimento do sionismo político organizado, Jerusalém para além da importância simbólica e religiosa que sempre teve para os Judeus da Diáspora, passou a ter também uma enorme importância demográfica: era a primeira vez desde a destruição do Segundo Tempo que se conseguiam estabelecer em massa na cidade e simultaneamente constituírem a maioria da população. E foi também a primeira vez que sua presença começou a causar inquietação entre os dirigentes árabes6.

in Lisboa - Tel Aviv

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Notas
2 Salmo 137:1 – A Bíblia Sagrada (Tradução de João Ferreira de Almeida, Edição Contemporânea, Editora Vida, S. Paulo).
4 GILBERT, Martin, História de Israel, p.19.
5 GILBERT, Martin, História de Israel, p.25.
6 MONTEFIORE, Simon Sebag, Jerusalém, a biografia, p.422.