sábado, 22 de junho de 2013

A fábrica de bonecas

Uma das perguntas que mais me colocam desde que cheguei à Venezuela é sobre mulheres. São realmente do outro mundo? Serão mais bonitas ou somente mais vistosas? A resposta não é fácil, mesmo para quem - como eu - não tem qualquer problema em debruçar-se sobre a beleza das demais. Certo é que estamos num país que foi berço de seis Miss Universo e de seis Miss Mundo, só ultrapassado pelos EUA, cujo território é, pelo menos, dez vezes maior... 


À partida, nas ruas e locais que frequento diariamente, diria que são mulheres comuns, umas bonitas, outras nem tanto. Morenas na sua maioria, de estatura média/baixa - eu própria me sinto alta ao lado de muitas delas, o que é um pouco estranho, já que não chego ao tão almejado 1,70m... -, e elegantes. Mesmo com uma alimentação muito à base de fritos - arepas e empanadas -, pode dizer-se que não se vê peso a mais como noutros países, e que regra geral são esguias.
Mas depois há os circuitos mais exclusivos e da moda, onde aí sim, se encontram mulheres bonitas, cuidadas e ousadas, mas não necessariamente deusas do Olimpo. Porém, em proporção, não creio que sejam assimtaaaantas para se poder considerar que estejamos num país abençoado pela mãe-natureza. Mas isto sou eu - e quiçá a minha inveja - a falar.
O que se diz, sem grande base científica, é que o boom de beleza por estes lados tem sobretudo a ver com a mistura que se deu após a imigração oriunda da Europa. De facto, se fizermos contas, concluímos que as misses Venezuela começaram a arrecadar aqueles títulos no início dos anos 80, umas décadas depois das levadas de imigrantes de Espanha, Portugal e Itália. As mesclas com o sangue criollo e ameríndio parecem ter dado origem a uma vaga de gente bonita... 
Aliás, note-se que pelo menos uma das Misses Venezuela é lusodescendente, Vanessa Gonçalves, em 2010, sendo que na história das misses há uma série de apelidos que nos fazem crer que outras também seriam - Machado, Silva, Castro... Por sua vez, a Miss Portugal 2011, Laura Gonçalves, é também ela nascida e crescida na Venezuela e ficou no top 10 da Miss Universo, o melhor lugar conseguido por Portugal naquela competição.


Carolina Herrera | Miss Venezuela e Miss Mundo no ano em que nasci | 1984


É certo que os genes são o mais importante, mas convém lembrar que neste país que parece fabricar misses há toda uma indústria na sombra destes concursos: clínicas de estética, clínicas dentárias, ginásios, cursos de idiomas, etiqueta e - definitivamente - muito dinheiro investido. Segundo este artigo, aproximadamente 35 mil euros por candidata. Sob orientação dos gurus, as seleccionadas parecem ser talhadas à medida para arrecadar o troféu a que se propõem.
Porém, nem tudo são rosas. Há quem diga que neste país se investe demasiado na beleza e muito pouco em saúde e comportamentos de prevenção. Disse-o Eva Ekvall, Miss Venezuela no ano 2000, quando com apenas 28 anos estava às portas da morte por ter descoberto tardiamente o seu cancro da mama. Dá que pensar. Definitivamente, a beleza não vale tudo. Mas parece que por estes lados vale quase tudo para destilar beleza.



Dulce in Agre e Doce