sábado, 15 de junho de 2013

A Suíça fecha-se

O voto a favor de um endurecimento do direito de asilo, a 9 de junho, é o primeiro de uma série de referendos sobre o acolhimento de estrangeiros. Tradicionalmente aberta aos imigrantes, a Confederação poderá, por pressão da crise, redefinir a sua identidade e fechar-se sobre si própria.


Nas carruagens de primeira classe não há um único lugar livre. São sete da manhã de uma quinta-feira no comboio que liga Zurique, o centro financeiro suíço, a Berna, a capital. Em quase todos os países esta seria, simplesmente, a imagem de um comboio cheio. Na Suíça não. Nesta ilha de prosperidade europeia, os comboios e os engarrafamentos em algumas estradas tornaram-se, para muitos suíços, sintomas evidentes de que alguma coisa está mal, de que as costuras do Estado-Providência estão a rebentar.
Definitivamente, sentem que neste pequeno país não há lugar para todos e que, portanto, chegou o momento de pôr ordem nas fronteiras. É um discurso que se ouve na rua, mas também nos gabinetes oficiais, onde agora se faz eco de uma agenda política defendida há anos pela extrema-direita.

Imigrantes são o motor da economia
Ontem, em referendo, os suíços aprovaram com uma larga maioria (79%) um endurecimento da sua lei de asilo. Tradicionalmente, em comparação com outros países da UE, a Suíça sempre foi um país muito generoso no que diz respeito ao acolhimento de refugiados políticos. O referendo realizado ontem é apenas um passo numa bateria de iniciativas com que a classe política quer dar resposta à crescente ansiedade dos cidadãos. A medida mais badalada, e que irritou Bruxelas, foi a ativação da chamada cláusula de salvaguarda, através da qual a Suíça restringiu as autorizações de permanência de longa duração dos trabalhadores da União Europeia, incluindo os espanhóis.
Nos próximos 18 meses, mais três referendos decidirão sobre a entrada de estrangeiros no país e contribuirão para redefinir a identidade de um país em que os imigrantes (23% da população, a maioria dos quais europeus, com os alemães à cabeça) foram historicamente os motores da economia.
A questão da cláusula de salvaguarda foi sobretudo uma medida simbólica. Afetará apenas três mil trabalhadores da UE que, em qualquer caso, poderão pedir autorização de curta duração até que, no próximo ano, expire a restrição. Tratou-se, como reconhecem os próprios governantes, de acalmar a população e de demonstrarem que são capazes de tomar decisões para controlarem a entrada e saída de trabalhadores, inclusivamente contra Bruxelas.

Tormenta passou ao lado da Suíça
Os problemas financeiros dos países da União contribuíram, em boa medida, para exacerbar os medos. A dura tormenta que fustiga com força o resto da Europa voltou a passar ao largo da Suíça, onde a economia está bem — previsão de crescimento de 1,2% —, o desemprego é quase insignificante — cerca de 3% —, e o exercício da sua muito especial democracia direta ainda lhe garante uma estabilidade política invejável. A sociedade suíça teme que hordas de trabalhadores estrangeiros mais ou menos qualificados venham estragar-lhes a festa.

Os idiomas estrangeiros confundem-se nas grandes cidades suíças. O espanhol, como o de Juan Crevillén, ouve-se com muita frequência. Crevillén é um jovem arquiteto que, desde há dois anos, trabalha num ateliê de Zurique. Aqui, ganha três mil euros líquidos por mês, mas avisa quem está a pensar em emigrar que a vida na Suíça é muito mais cara.
O patronato suíço não quer restrições de entrada. Para eles, quanto mais concorrência, melhor. Thomas Daum, presidente da União Patronal Suíça, defende que 2014 é um ano chave em que, com as suas votações, os suíços redefinirão a sua identidade. Daum considera que o pior ainda está para vir e que a ativação da cláusula de salvaguarda foi um mal menor. “Durará apenas um ano. A grande questão é o que vai acontecer nos próximos meses, nas próximas votações contra a imigração.

Medo dos estrangeiros nas zonas rurais
O nosso mercado laboral não é pequeno, não basta para que a nossa economia funcione”, afirma Daum. As grandes empresas farmacêuticas, a banca e a produção de maquinaria para exportação, principais pilares da economia, simplesmente não funcionariam sem a mão-de-obra dos que vêm de fora.
Os grandes argumentos utilizados pelos que que pedem que a entrada de estrangeiros seja limitada desmoronam-se de repente. Os comboios não andam cheios porque há mais gente, mas sim, em parte, porque o serviço melhorou. Que a presença de estrangeiros propicia o dumping social, ou seja, a queda dos salários, é coisa que o patronato nega e que os sindicatos consideram que, a acontecer, deveria ser resolvido com mais inspeções.
E que há mais criminalidade — ao contrário do que acontecia antes, os suíços já não deixam as portas das suas casas abertas — é possível. No entanto, verifica-se que é nas zonas rurais, onde quase não há roubos nem ataques, que o discurso do perigo dos estrangeiros está mais arreigado, o que demonstra, uma vez mais, que o poder da perceção perante o da realidade.
Infrastruturas não se adequaram
É precisamente fora das cidades que triunfa a extrema-direita populista, a maior força no parlamento e, provavelmente, a principal responsável de que o debate sobre a imigração esteja, nos últimos tempos, a par com o segredo bancário, na agenda política da Suíça.
No entanto, é verdade que, todos os anos, a população suíça aumenta várias dezenas de milhares de pessoas, num país com apenas oito milhões de habitantes e que algumas infraestruturas não se adequaram ao tamanho da população.
“Houve um crescimento demográfico importante nos pulmões económicos do país que, por exemplo, não foi acompanhado por uma política imobiliária e os preços dos apartamentos subiram. E também se culpam os estrangeiros por esse facto”, diz Cesla Amarelle, professora de direito migratório na Universidade de Neuchâtel e deputada socialista. No comboio de regresso a Zurique há lugares vagos nas carruagens. Já não é hora de ponta.
Press Europe