domingo, 30 de junho de 2013

Do ontem e do hoje

«Tinha 12 anos, no longínquo 1966, quando ingressei na Escola Industrial. Saía de casa às sete da manhã, e após quarenta e cinco minutos de comboio e outros tantos a pé carregando livros e almoço, estava na escola. No regresso a mesma coisa, chegando a casa às nove da noite.

Todos os dias quatro horas de aulas práticas de serralharia, a lima de doze polegadas pesava quase tanto como eu e deixava-me as mãos em sangue. Nas derradeiras aulas do dia o cansaço dava sinais e por vezes deixava-me dormir, puseram-me a alcunha de tsé-tsé, sobretudo naquelas maçadoras aulas de Física e Química dadas à pressa devido a não termos tido professor no primeiro período.

No primeiro ponto daquela disciplina, qual teste nem teste, dei-me ao luxo de ter batido o record de menor valor obtido num ponto. As respostas ao teor do mesmo foram zero, mas como o cansaço me levou a preencher o seu cabeçalho com erro, a nota obtida foi menos um (-1). Naquele tempo só havia duas vias para contacto com os encarregados de educação. A sua assinatura de conhecimento dos resultados obtidos nos pontos, ao lado da do professor, e através de carta quando o comportamento do aluno excedia o previsto e recomendável. Com uma nota daquelas o meu pai chegou-me a roupa ao pelo, vindo todo o imbróglio daquela situação a servir-me de exemplo mais tarde.

Naquele tempo não havia subterfúgios, não havia desculpas, ou era branco ou preto não havia cinzento.
Tudo isto para dizer que foi com aquelas dificuldades, naqueles ambientes que não lamento de forma alguma, que me fiz Homem.»

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