segunda-feira, 17 de junho de 2013

Esta greve é sujinha, sujinha

Henrique Raposo

Mesmo que tivessem razão, os sindicatos dos professores perderiam essa razão a partir do momento em que marcassem uma greve para um dia de exames fundamentais para o futuro dos alunos. Foi isso que aconteceu. Usar os alunos como reféns é sujo. Sim, esta greve é sujinha, sujinha. É inaceitável que os professores usem os alunos como instrumentos de uma chantagem corporativa sobre o governo e, acima de tudo, sobre os contribuintes. Porque é bom relembrar o óbvio: esta não é uma guerra entre o governo de hoje e os sindicatos de sempre, esta é uma guerra entre o idiota do contribuinte e a maior corporação que vive atrelada ao orçamento de estado.


Apesar de tudo, ainda tenho esperança, ainda espero uma coisa: a esmagadora maioria dos professores vai revelar decência, vai mostrar que existem limites morais na luta política e sindical. Posso esperar sentado? Espero que não. Se o meu desejo ficar pelo caminho, se esta greve atrapalhar mesmo a vida de milhares de miúdos e de famílias, poderemos então dizer que este dia representará o ponto mais baixo desta classe profissional, que, por culpa própria, já não tem o prestígio de outrora. Hoje, 17 de Junho de 2013, seguir o absurdo sindicalismo de Mário Nogueira e afins é o mesmo que negar a própria ideia de professor. O professor é aquele que faz tudo para proteger os alunos, mas esta greve mostra outra coisa: muitos professores fazem tudo para proteger os seus privilégios, inclusive sacrificar os alunos. 
O engraçado é que estas pessoas dizem que estão a proteger a escola pública. Lamento, mas estão a fazer exactamente o contrário. Os miúdos privilegiados dos colégios privados vão fazer os exames sem stress, porque os seus professores não fazem greve (apesar de ganharem menos). Os grandes prejudicados são os miúdos que só podem andar na tal escola pública, a instituição que foi destruída por esta absurda inversão moral: em Portugal, o debate em torno da educação gira em torno dos professores, e não em torno dos alunos. É como se a escola existisse para dar emprego vitalício a uma casta (mesmo com horários zero). É como se os alunos e os seus resultados fossem uma coisa secundária. Neste sentido, esta greve sujinha é o reflexo natural de um sistema que está errado deste a raiz.