terça-feira, 11 de junho de 2013

Matar Cunhal seria o fim de Soares

Henrique Raposo no Expresso

Infelizmente , ninguém está verdadeiramente interessado na consumação de uma coligação governamental à esquerda. Por razões diferentes, BE e PS não querem dar esse passo que rasgaria 40 anos de tradição política. 


O 25 de Novembro consagrou o tal bloqueio à esquerda que transforma a III República numa aberração europeia: os comunistas ficaram fora do arco governativo e, em consequência, uma coligação governamental de esquerda entrou no domínio da ficção científica. Até hoje. Porquê? Porque o PCP recusava qualquer acordo que sujasse a sua pureza. O PCP tinha a intolerância dos puros. Naquelas cabeças, "acordo", "compromisso" ou "coligação" eram palavras malditas; um acordo entre duas forças não era um acto civilizacional, era uma "traição" à Esquerda. Assim mesmo, Esquerda, uma espécie de religião que nos esmagava com o peso da maiúscula. E, como guardião da Esquerda, o PCP não admitia compromissos. Se és moralmente superior, se os outros não passam de gente menor, por que razão vais fazer um acordo com eles? Para mal dos nossos pecados, este nariz empinado passou do PCP para o BE, a novidade jurássica. Desde 1999, esta agremiação tem juntado meninos e meninas com acesso ao melhor dos dois mundos: estão na política, mas recusam a responsabilidade inerente à actividade política; são políticos profissionais, mas recusam sujar as mãos na realidade. O novo BE vai mudar este cenário? Gostava muito que mudasse, mas não acredito. Os queques revolucionários não têm coragem para tal. É tão bom ser o partido fofinho, não é verdade? 
E o PS estará interessado num BE novo? Não. A ambiguidade do 25 de Novembro em relação ao PCP deu uma posição de destaque a Soares. Naquele dia de 1975, o PS alcançou o estatuto de árbitro do sistema. É por isso que Soares nunca quis expulsar o PCP (a vontade de Sá Carneiro), pois a presença de Cunhal garantia a tutela soarista sobre as direitas. Exemplos? O movimento que mais lutou pela europeização política de Portugal, a Ala Liberal/PSD, passou a necessitar dos salvo-condutos soaristas. Esta posição-charneira garantiu até hoje o nariz empinado do PS. E os socialistas de 2013 sabem bem qual é o caminho que garante a manutenção deste status quo: dizer não à coligação progressista. Se construir uma coligação com BE e/ou PCP, o PS perderá de imediato o estatuto de árbitro do sistema; matar a marca que Cunhal deixou no nosso sistema político significaria o fim do império soarista sobre a III República. Portanto, a recente algazarra em redor da "frente popular" é só fumaça. Este regime é propriedade do Dr. Soares e os seus descendentes não estão interessados em abdicar da herança. Gostava de estar enganado , mas não estou.