quinta-feira, 20 de junho de 2013

No Cabo das Tormentas

Os brancos sul-africanos, nomeadamente os boers, durante décadas tiveram um comportamento absolutamente miserável para com a população "coloured" do país. Lembro-me que a pouco mais de um mês do 25 de Abril, regressando com os meus pais e irmãos de uma viagem a Joanesburgo, parámos em Nelspruit para reabastecer a viatura. Um enorme zulu de serviço à bomba, comentou, apontando para matrícula: "in Mozambique we are free". Foi este o tema para mais uma lição do nosso pai, fazendo-nos notar ser a África do Sul um país independente, enquanto Moçambique era um território sob a soberania de uma potência europeia. Os paradoxos não se ficavam por aí, estendendo-se os exemplos ao absurdo do Apartheid e aos seus mais visíveis e escandalosos aspectos: bancos, cinemas, restaurantes, casas de banho, transportes públicos, escolas e hospitais, enfim, um mundo que para nós era totalmente desconhecido, abjecto.Sabemos no que tudo aquilo deu. Os sul-africanos foram recompensados com um príncipe em todos os sentidos que o termo encerra. Mandela sempre foi e ainda é, uma figura que paira sobre um mundo onde a reles vulgaridade impera despudoradamente. Foi ele, o doce castigo ministrado aos mais radicais boers: o perdão, a reconciliação, o estender do ramo de oliveira.Pelo contrário e apesar de todos os discursos do Portugal multirracial e pluricontinental, dos textos escolares acerca dos casamentos mistos que fizeram a lenda de Albuquerque e da infalível construção de outros Brasís - apesar de já não termos um D. João VI que nos valesse -, o que nos sucedeu? Por obra e graça da Capitulação de Lusaca, em vez de um tenuemente esboçado Mandela, tivemos um Moisés de águas turvas, de seu nome Samora. O resultado está à vista, aquém e além mar. O desastre económico, a brutal ditadura de todas as "reeducações", uma liminar limpeza étnica e um milhão de mortos em menos de vinte anos.
Dito isto, o que se torna evidente nesta hora de ocaso de uma vida ímpar, é tudo aquilo que se tem passado desde que Mandela chegou, com todo o mérito - e esplendorosa sorte de milhões de sul-africanos - à presidência do país. A sua ex-mulher Winnie e a filharada, logo começaram a esvoaçar em círculos sobre a mesa do banquete, não dando meças à cupidez e a casos de polícia. Escândalos atrás de escândalos, crimes de sangue, o amealhar de milhões provenientes da chantagem, roubo e expropriação, o ataque aos donativos para "causas" e toda uma panóplia de atitudes difíceis de qualificar, tornaram-se no apanágio do novo poder instituído. O sr. Julius Malema, pequeno ditador da juventude do ANC - uma criatura brutal, bronca, execravelmente racista e de um devorismo sem limites -, apenas tem sido um dos frutos podres do imenso pomar de todo o tipo de ilegalidades, abusos, assassinatos em série e mentiras instituídas às custas do legado do Madiba. O pândego sr. Zuma, o actual Chefe do Estado, é um daqueles típicos exemplos a que aquela parte do mundo nos habituou, em nada fugindo ao padrão que em Mobutu encontra um fácil e oportuno nome que o caracteriza, não esquecendo as variantes conhecidas por Idi Amin, Bokassa, Touré, Mugabe, Nguessu, etc. A lista é longa, imensa.

Mandela merecia melhor. Gente que apenas lhe é qualquer coisa devido a um comprovativo ditado pelo ADN, ameaça destruir muito de uma imagem que o mundo aprendeu a olhar como exemplo máximo da decência. 


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