quarta-feira, 12 de junho de 2013

Que Turquia queremos nós?

Editorial


Garantir a prosperidade do povo não basta para evitar protestos. Segundo as previsões da Comissão Europeia, a Turquia deverá registar um crescimento de 3,2%, em 2013, e de 4%, em 2014, em comparação com -0,4% e +1,2% da zona euro, respetivamente. Mas centenas de milhares de turcos saíram à rua para protestar contra a política e o poder do primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdoğan. E o clima no país parece indicar que as manifestações poderão continuar, ainda que sem os atos de violência espetacular dos primeiros dias.
A situação económica e social não é o motivo original dos protestos, que eclodiram por causa de um projeto de ordenamento urbano em Istambul. E é esta a primeira diferença relativamente às primaveras árabes, às quais o movimento da Praça Taksim foi comparado.
A segunda diferença em relação às primaveras árabes é que Erdoğan não é um tirano que tenha arrebatado o poder em benefício de um clã, sem contemplações pelo bem-estar do seu povo e pela saúde do país. O líder do AKP, Partido da Justiça e do Desenvolvimento, foi eleito por três vezes, no quadro de escrutínios justos, e conta com um índice de popularidade suscetível de suscitar a inveja de muitos dirigentes europeus.
É, aliás, paradoxal, tentar identificar os acontecimentos na Turquia com os ocorridos no mundo árabe, depois de, durante tanto tempo, se ter explicado a vocação europeia daquele país. Contudo, nos últimos dez anos, os defensores da adesão da Turquia à UE têm confundido a política de modernização conduzida por Erdoğan com um desejo de europeizar o seu país.
A menos que se acredite que a civilização europeia se resume ao crescimento económico e a novos centros comerciais, ou que a Europa detém um monopólio intelectual sobre a mínima medida democrática tomada fora da UE, a ambição do primeiro-ministro turco para o seu país não fez dele o candidato ideal à adesão. Os manifestantes da Praça Taksim vieram recordar-nos que o projeto do AKP desenha uma via específica, conforme com as identidades múltiplas e por vezes contraditórias da Turquia: ponte entre dois continentes, encruzilhada de várias culturas, muçulmana, pós-otomana e kémalista.
Essa política teve a grande vantagem de fazer a Turquia livrar-se do seu papel de peão estratégico da NATO e de fornecedora de mão de obra barata. A Turquia é agora um parceiro comercial importante e uma potência política com a qual é possível contar. E a diáspora turca, que engloba uma juventude em muitos casos com nacionalidade dupla e multicultural, pode agora entrar e sair à vontade num país dinâmico, com benefícios para toda a gente.
É aliás essa juventude turca, aberta ao mundo e que vive dos frutos do crescimento impulsionado por Erdoğan, que lidera os protestos contra este último. Porque essa juventude aspira a uma qualidade de vida que não se resume a ter oportunidades. Essa juventude e os manifestantes de todas as idades que a seguem preocupam-se com o ambiente, querem escapar à dominação da religião, querem ser ouvidos e respeitados pelo poder.
Para a União Europeia, que, quatro dias antes das manifestações em Istambul, anunciava o seu desejo de relançar as negociações de adesão, a situação é desconfortável. Recep Tayyip Erdoğan, que rotula os manifestantes de “terroristas” e mantém na prisão mais jornalistas do que a China ou o Irão, continuará a ser garante das boas relações entre a Turquia e a UE? O seu interesse pelos modelos russo e chinês será compatível com os objetivos estratégicos e com os princípios da UE?
Ainda assim, Erdoğan continua a dispor de uma ampla base política e, para já, nem os kemalistas, nem os curdos, os comunistas ou os alevitas constituem uma alternativa credível ao seu poder. Depois de ter adotado uma política indefinida durante meio século, a UE deve interrogar-se sobre o que representa para si a Turquia e que relação quer construir com ela. Num momento em que uma parte do povo turco aspira a mais liberdade, a indefinição seria a pior opção.

Press Europe