sexta-feira, 28 de junho de 2013

Sim, sou um ultra-neo-liberal-capitalista-fássista-imperialista-militarista-atlantista



Está um porta-aviões norte-americano em Lisboa, o USS Dwight Eisenhower. Amanhã vou visitá-lo, a convite da Embaixada dos EUA. Sim, para algumas mentes brilhantemente mentecaptas, sou um ultra-neo-liberal-capitalista-fássista-imperialista-militarista-atlantista, ou seja, um filho do Demónio. O mesmo é dizer que não me queixo hipocritamente do capitalismo que produz as armas que os moderninhos revolucionários de sofá tanto gostam de utilizar, e muito menos me indigno selectivamente e aplaudo alguns eleitos como Steve Jobs, embora não deixe de notar, como Chesterton, que o conceito de propriedade foi corrompido pelos grandes capitalistas e que estamos, como Tiago Caiado Guerreiro fazia notar há dias, a viver num sistema cada vez mais semelhante ao feudalismo em que a maioria das pessoas são meros servos da gleba. Afinal, não consta que os grandes senhores neo-feudais sejam propriamente defensores do liberalismo e do capitalismo que pugna pelo mercado livre, aquele onde as empresas (como os bancos) mal geridas vão mesmo à falência, não sendo resgatadas por dinheiro dos contribuintes obtido através de uma sempre crescente carga fiscal. Num tempo em que o debate político se deixa enredar pelo economês e as partes em contenda tendem a barricar-se em trincheiras com categorias pouco ou mal definidas e/ou que dificilmente correspondem às realidades que pretendem explicar, vale a pena citar José Adelino Maltez:
«Um liberal não precisa de ser anarco-capitalista para reconhecer que o Welfare State sofre de raquitismo, quando se admitiram estruturas adiposas de gordura sem adequado músculo e calcificada ossatura, que puseram em causa as articulações e a própria estrutura óssea do corpo social. Contudo, ao mesmo tempo que fala em menos Estado, relativamente aos intervencionismos anteriores, também clama por um melhor Estado, isto é, por uma nova intervenção da esfera pública em domínios como os da qualidade de vida, do ambiente e da descentralização, visando responder, com justiça, às novas questões sociais.Ser liberal não significa ceder às forças reivindicadoras do capitalismo autenticamente selvagem e multinacional que, mantendo a justiça e a dimensão ética dentro dos respectivos espaços político-culturais, exportam, para os terceiros e quatros mundos, essas vias super-liberalistas para a construção de um laboratório do mercado da concorrência perfeita.Mas esta não passa de um mero exercício mental daqueles ideologismos economicistas que não foram, nem serão, aplicados em qualquer lugar e em qualquer tempo, salvo nos exercícios de imaginação teórica dos modelos académicos e dos manuais pedagógicos, dado que os povos, feitos de homens concretos, de carne, sangue e sonhos, não podem ser cobaias de experimentação para tais tratamentos de choque.»

Samuel de Paiva Pires