sexta-feira, 7 de junho de 2013

Soares, a raposa

O que quer Mário Soares? O que leva uma personalidade jurássica da história do século XX, pelo bem e pelo mal, a perigar todo o prestígio que lhe possa ainda pairar, quer pela crueldade subjacente a personagens históricas que ainda não gozam da complacência da morte, quer pelas consequências actuais de muitas decisões políticas que encaminharam a este quasi-desfecho? Não é um fim, mas é isso que transparece nos media: o objectivo parece ser retirar o governo e chegarmos ao fim da História, à solução definitiva de todos os problemas. E é exactamente com isto que Soares joga, e joga bem.
Soares não é estúpido. Pelo contrário, tem a argúcia necessária para antever movimentações e precaver-se, colocando-se na linha de fogo para evitar tudo o que não ambiciona. Fê-lo com as presidenciais, candidatando-se, ridiculamente, com a única intenção de canibalizar votos de Manuel Alegre. Foi bem sucedido, conseguiu com isso assegurar a eleição do seu presidente, que não sendo ele próprio, só poderia ser Cavaco Silva, aquele que não assumiria papel de protagonista principal na fase de “austeridade oficial” decorrente do memorando de entendimento com a troika.
Agora, como planeado, é necessário assegurar ao seu querido PS a sucessão governativa, de acordo com o tácito plano que permite diabolizar o governo em exercício sem, porém, a possibilidade de o derrubar precocemente. De forma clara: as instituições europeias não permitem a Seguro derrubar o governo, mesmo que hoje o conseguisse fazer por via parlamentar. E é fácil perceber porquê: Seguro será o próximo a negociar com a troika, a nova troika, a troika da “austeridade não oficial”, a austeridade que veio para ficar, digam o que disserem. A troika da união bancária, a troika dos eurobonds, a troika da federação.
Soares, apalhaçando a coisa, renega tudo o que fez como governante. Isto permite-lhe a agregação dos desprovidos de soluções, os semi-órfãos do Bloco e, sobretudo, os órfãos de Sócrates. Não se pode permitir mais “golpes de estado”, como aquela tentativa gorada de convencer António Costa a ser o testa-de-ferro da herança socrática. Haverá lugares para distribuir e estes estão em risco. Adoptando-os, Soares consegue duas coisas: colá-los a facção irresponsável da esquerda trauliteira e assegurar-lhes continuidade sob o seu próprio pulso, eventualmente em cargos afastados da palhaçada mediática em que se especializaram, desviando-os do caminho de Seguro. O próximo governo, sendo socialista, precisa de demonstrar à populaça, com a ajuda dos média, que a austeridade é consequência da governação anterior e não da conjectura de um Estado falido. Eventualmente, cargos na Europa, queira a sorte permitir a nomeação de Sócrates para a Comissão Europeia, esperam os Galambas e Lellos, tal como anteriormente esperaram as Anas Gomes desta vida.
É admirável a capacidade de Soares em colocar a cabeça no cepo no momento certo com vista ao resultado que pretende. Desvalorizar Soares é um erro, como se comprovou sistematicamente ao longo das últimas décadas; como as já mencionadas eleições com objectivo alcançado à priori: se ganhasse, óptimo; se perdesse, asseguraria (como assegurou) que não venceria um presidente com manias tonto-revolucionárias.
Desta vez, Soares corre mesmo para perder. Essa será a sua vitória. Ele sabe disso. Os Galambas e Lellos sabem disso e aceitam o que lhes tocar no sorteio, que é bem melhor que lugares não elegíveis. Já o que leva reitores de universidades portuguesas a caírem no engodo, isso é que me ultrapassa.
In Blasfémias