segunda-feira, 24 de junho de 2013

Um piano nas barricadas



A Itália da década de 70 viu surgir um movimento surpreendente que pretendia afirmar a autodeterminação do proletariado, sem concessões nem mediações. O livro Um Piano nas Barricadas: Autonomia Operária (1973-1979) (Edições Antipáticas) relata este peculiar acontecimento que, sem bases, sem posto de comando, no início até sem programa, ousou destruir toda a estratificação social que o capitalismo impõe. Este livro mostra-nos o ponto de vista de Marcello Tarì sobre os acontecimentos mais marcantes e todo o contexto social e intelectual que os rodeava. O sujeito é assim uma difusa rede de diferentes agentes, organizados em grupos heterogéneos, cujo papel se vai revelando ao longo da narrativa. Ao invés da sacralização heróica dos actos deste ou daquele indivíduo, existe uma multiplicação de experiências que vai contribuir para afirmar os valores do movimento, que conseguiram tornar-se bastante precisos.

Num depoimento recolhido durante o processo que visava desmantelar o movimento, Lucio Castellano dá-nos um potente retrato do que foi a Autonomia:

<> (Interrogatório de Lucio Castellano perante o juiz instrutor, 12 de Junho de 1979)

O movimento parte da identidade do operário fordista para questionar o seu papel económico e ambicionar à sua destruição, enquanto produtor e consumidor passivo, aprofundando depois esta experiência nos seus diferentes papeis sociais. Assim, a relação de exploração que define o proletariado é compreendida de forma extensiva. Ultrapassa os limites da fábrica e questiona as relações contemporâneas de sociabilidade em diferentes níveis. Por exemplo, este movimento vê ascender uma forte crítica feminista do papel da mulher. Olha para o trabalho doméstico enquanto trabalho não pago e para o papel reprodutivo enquanto sustentação da criação de mão-de-obra necessária ao sistema. Contra esses papéis da mulher, o movimento feminista tenta estratégias “peregrinas” como a Greve Humana. 

Outra questão central do movimento, e que mostra bem o aprofundamento da sua crítica, está relacionada com o papel do desejo. Profundamente influenciados pela crítica a Freud presente em O Anti-Édipo de Deleuze e Guattari vai atender ao desejo como devir revolucionário.

Este extravasar da fábrica para o quotidiano levou a possibilidades excitantes e entusiasmantes que vão de algum modo superar a nova identidade proletária que, como sabemos, se tornou mais difusa, complexa e atomizada segundo o sistema de produção pós-fordista. Ao transpor os limites normativos que a cadeia produtiva capitalista impõe a Autonomia fortaleceu-se e a sua crítica endureceu:



«Os “jovens” são uma invenção recente, não existiam enquanto categoria sociológica até aos anos Quarenta, começam a existir quando o Estado e o mercado de trabalho criam, na década seguinte, o espaço para um estrato da força de trabalho em formação na qual pretendem também construir o consenso relativamente às formas sociais dominantes. Mas se nos anos Sessenta este estrato social começa a recusar a organização autoritária da sociedade e do trabalho, na década seguinte os jovens, agora já proletarizados, tornam-se cada vez mais indisponíveis para o trabalho e utilizam o tempo de não-trabalho para a subversão do tempo total da vida. A taxa de desemprego jovem alcançou níveis estratosféricos nesses anos, mas os jovens já não constituíam um “exército de reserva” à disposição do capital simplesmente porque, a certo ponto, muitos deles escolheram não voltar a pedir para entrar na fábrica ou em qualquer outro lugar para se deixarem explorar, mas permaneciam de fora, a reinventar a vida, combatendo duramente e resistindo ao trabalho, difundindo formas de desfrute imediato do mundo através da pesquisa de uma utilização livre e comum de tudo. Muitos eram os que, ainda que não tivessem emprego na fábrica ou no escritório, passavam de um trabalho precário para outro, partilhando casas e dinheiro com os companheiros com quem por vezes iam depois queimar a empresa onde tinham acabado de trabalhar.

(…) “Movimento é o estrato social que se move”, escrevia “A/traverso” num dos seus primeiros artigos, em 1975, e referia-se exactamente ao que se começava a chamar proletariado jovem. Os primeiros a forjar esta expressão foram os redactores de “Re Nudo”, uma revista de contracultura ao redor da qual giravam muitas experiências libertárias, dos situacionistas aos autónomos, dos últimos hippies aos apoiantes de um comunismo psicadélico. “Re Nudo” organizava reuniões musicais e políticas segundo o modelo do Movement norte-americano e do Norte da Europa, tendo partido dos seus interesses iniciais pelas drogas, o rock e a contracultura para se aproximar cada vez mais do que era expresso no movimento autónomo. Em Itália, ao contrário dos Estados Unidos e de outros países, a contracultura desenvolveu-se a níveis de massas dentro de um movimento juvenil que já era muito politizado: gente que ligava facilmente a marijuana ao exproprio selvagem, o sexo livre aos distúrbios de rua, o rock duro à greve selvagem. Até aí, os encontros eram organizados em localidades fora das cidades, às vezes tão perdidas que nem sequer se sabia como lá chegar, mas a certo ponto os hippies maoístas de “Re Nudo” começaram a pensar sobre os comportamentos de rebelião juvenil que se estavam a difundir na grande metrópole e, não por acaso, o seu interesse pela construção de comunas teve de render-se ao facto de que era mais interessante, em Itália, procurar fazê-las na cidade do que em ambientes rurais longínquos, como acontecia noutros locais.

A partir do Outono de 1975, grupos de jovens partiam das periferias urbanas e dirigiam-se ao centro para saquear as lojas, provocavam confrontos nos estádios de futebol, apresentavam-se frequentemente às centenas nas entradas dos concertos de rock e desencadeavam um inferno para não pagar o bilhete, por vezes apenas para estragar o concerto, considerado o enésimo assalto e tentativa de lhes proporcionar um espectáculo do qual estavam irremediavelmente separados: música-mercadoria servida quente para os estupidificar com promessas de Peace & Love. Era a isso que os jovens proletários do Núcleo Autónomo de Quarto Oggiaro, um gangue da periferia milanesa próximo das revistas “Puzz” e “Gatti selvaggi”, chamavam “organização mafiosa da passividade” e continuavam – dirigindo-se aos seus companheiros – “quando vocês vão aos concertos, vão na verdade TRABALHAR, mas o ridículo é isto: que vocês pagam para ir trabalhar”. A polémica dura e acesa com os organizadores dos concertos e dos festivais rock aqueceu, mesmo quando os organizadores eram os grupos extra-parlamentares, que foram mais do que uma vez obrigados a fazer com os que os músicos tocassem com o serviço de ordem disperso sob o palco e nas entradas porque, diziam os autónomos com lucidez: “a gestão de esquerda da alienação é apenas uma gestão de esquerda da alienação”. Os grandes concertos de rock tornaram-se assim mais um dos mil problemas de “ordem pública” e, após um molotov ter voado para o palco de Santana incendiando a amplificação, mais nenhuma estrela quis ir tocar a Itália durante largos anos. Menos mal: a criatividade foi mais autónoma e houve mais espaço para o do it yourself, também na música.

Os estudantes dos liceus tinham, pela sua parte, começado a ocupar as escolas de forma cada vez mais organizada: as ocupações podiam durar semanas e semanas, durante as quais a coisa mais importante era a acumulação de contrassaberes úteis à sabotagem da metrópole e a intensificação de novas experiências, isto é, a construção de comunas temporárias, a experimentação de novas formas de amor e de luta, para lá do aprofundamento teórico-político que habitualmente acompanhava as agitações estudantis. Durante esses meses, os mais zangados começavam também a entrar em confronto violento com os directores e professores reaccionários, tornando-se normal encontrarem os seus automóveis destruídos por bombas incendiárias, como acontecia aos seguranças e directores de secção nas fábricas. Nas escolas onde o Movimento era forte, ao cabo de dois anos os directores e professores já não governavam nada.

Foi em Milão que tudo se condensou improvisadamente no Inverno entre 1975 e 1976. Os gangues juvenis eram cada vez mais numerosos e lançavam-se ao assalto da metrópole, ocupavam apartamentos vazios para fazer comunas, inventaram os centros socais onde organizavam concertos e espectáculos teatrais, expropriavam as mercadorias: começavam a compreender ser uma “força”. Re Nudo”, juntamente com o que restava de Lotta Continua, puseram à disposição os seus saberes e algumas das suas sedes e, juntamente com os grupos, criam os primeiros Círculos do Proletariado Juvenil que chegaram em pouco tempo a cerca de trinta apenas em Milão, geralmente cada um com a sua sede e o seu jornal. Os rapazes que constituem os círculos são na maioria aprendizes muito jovens de pequenas fábricas, trabalhadores precários, desempregados e estudantes-trabalhadores, mais uns quantos “cães soltos” e ex-militantes de extrema-esquerda: todos entram em polémica com os grupos que “propõem a divisão entre criatividade-divertimento e política tradicional”. Os Círculos, ao contrário de todas as forças organizadas, que sempre tinham tido a sua sede no centro da cidade, escolhem o caminho do enraizamento no território:

“A cintura metropolitana era formada por bairros de construção relativamente recente, ou seja, tinham sido fabricados no fim dos anos Cinquenta. Os jovens nascidos nesses bairros demoraram 15 ou 16 anos a recuperar uma identidade territorial, a tornar amigável o território e a pensar que, para eles, a vida libertada não era desejável apenas na sede política central mas no seu bairro, sem intervenções externas” (Primo Moroni, “Ma l’amor mio non muore”, in Gli Autonomi I, op. Cit.).

Também por isto se imaginavam “índios metropolitanos”, fechados nas suas “reservas”, excluídos de tudo, mas que podiam daí partir para saquear o centro da cidade, defendido pelos “casacos azuis”. O mal-estar desses rapazes, com idades entre os 13 e os 18 anos, derivava de terem como locais e meios de socialização apenas o bar, os flippers, as bandas desenhadas pornográficas, o cinema de série C, as drogas pesadas, os bancos gelados dos esquálidos jardins da periferia, enquanto o seu desejo os pressionava para uma forma diferente de estar juntos. Os jovens dos Círculos, por exemplo, queriam que ao feriado do Primeiro de Maio se juntasse o primeiro dia da Primavera, porque odiavam a metrópole e amavam imaginar a libertação dos bairros para fazer deles as suas pradarias.

No mesmo período, os bairros mais centrais de Milão de composição popular, como o Ticinese, tinham sido lentamente apropriados por estruturas políticas autónomas e muitíssimos eram os jovens que ocupavam as velhas casas comunitárias nas quais tinham vivido os proletários do século XIX, criando assim verdadeiros “bairros vermelhos”. A velha classe operária, pelo contrário, fugia dessas casas para ir para os novos bairros-gueto, onde os apartamentos talvez tivessem casa de banho privada e um lugar de estacionamento para o carro utilitário. Habitações estudadas para o isolamento da família mononuclear, imersas numa solidão gigante, construídas dentro de bairros horríveis onde as ligações de solidariedade desapareciam e nem sequer existiam os bares onde se poderia ir beber um copo de vinho e falar com os amigos depois do trabalho: os seus filhos não amavam certamente estes novos símbolos de estatuto do “bem-estar” operário, construídos no meio do nada e que se tornariam os locais da sua domesticação humana. >>

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A multiplicação de experiências e identidades insurrecionais, que partem da teoria clássica marxista sob o controlo dos meios de produção e vão tão longe quanto a multiplicação de identidades sexuais, contribuíram para o fortalecimento desta unidade de combate popular que vai muito além dos preceitos leninistas sobre a táctica para o combate político. Esta experiência revela como o antagonismo dentro do próprio movimento, a constante contestação e desafio das estruturas, e a capacidade de multiplicar as experiências e suas identidades, contribuiu para o fortalecimento da sua crítica do quotidiano, tudo isto conseguido sem qualquer disciplina militar ou comité central. O seu culminar aconteceu com a insurreição de 77 que se espalhou como um raio e acabou com a repressão dos tanques a recuperar a ordem nas praças italianas. Gorou-se a possibilidade de criar de raiz uma nova sociedade baseada na autodeterminação e na sociedade sem classes mas a história dos movimentos autónomos ganhou um importante momento aqui retratado ao longo destas páginas entusiasmantes que as Edições Antipáticas acrescentam ao seu assinalável cardápio de importantes escritos que alimentam algumas das mais efervescentes críticas no panorama editorial português.