segunda-feira, 8 de julho de 2013

Cheio de razão

Santana Lopes: Se há conversa que me enerva é a de que “por muito menos, Sampaio mandou embora o seu Governo” ou, no mesmo sentido, “comparar isto com o seu Governo…”. Ainda por cima, dizem isto à espera de que eu agradeça a generosidade.E quando amigos mandam SMS informando que Ricardo Costa, ou alguém do meio, acabara de afirmar que me devia um pedido de desculpas como se levassem a sério essa retórica e como se me aquecesse ou arrefecesse essa retórica de circunstância.
Enerva-me por uma razão muito simples: não tem comparação. Pondo de lado quaisquer comparações de ordem pessoal, qualquer juízo sobre as capacidades dos diferentes protagonistas, objetivamente não existe comparação. Basta um motivo: em 2004 não houve qualquer dissonância, em expressões públicas, entre responsáveis e partidos da coligação. Uma única exceção: Paulo Portas não foi à sessão de encerramento de um Congresso do PSD porque alguns congressistas fizeram intervenções críticas para a coligação.Em 2004, Jorge Sampaio dissolveu quando existia uma maioria coesa no Parlamento e quando não aconteceu qualquer diferença pública de opinião entre mim e o então Ministro de Estado e da Defesa, Paulo Portas. Agora, como se sabe, não tem sido assim. Não estou com isto a defender – porque seria contra – que existam razões para o Presidente tomar decisão idêntica. Mas, naturalmente, é mais fácil a um Presidente que queira convocar eleições ter divergências graves na maioria parlamentar do que não as ter. Na altura não existia propriamente crise, não havia troika, nada de greves gerais e quase nada de manifestações.Compreenderão, pois, que deteste essa conversa, que é feita às vezes por amigos bem-intencionados e quase sempre por quem de amigo não tem nada. Para além do mais, o mal está feito. Mas chega dessa conversa. Em minha opinião, Cavaco Silva tem agido com toda a ponderação, com toda a serenidade, tentando salvaguardar aquilo que considera exigível pelo interesse nacional. É assim que deve agir um Chefe de Estado: não ceder ao rufar de tambores.