domingo, 7 de julho de 2013

Ecos da semana política

Portugal dos pequeninos
Seguro tem razão. O nosso é um problema de crescimento. Antes de mais, e sobretudo, dos líderes políticos. Coelho, Portas, Relvas, Sócrates e ele própio são raquíticos. E o mais grave é que não só são pequenos, como se recusam a crescer. E vivem, assim, como meninos perdidos numa Terra do Nunca, uma fantasia de histórias de piratas, fadas, crocodilos, traições e juramentos. O problema é que as nossas vidas dependem das aventuras destes garotos. Das suas jogadas, dos seus caprichos e cumplicidades. Os acontecimentos das últimas horas seriam uma brincadeira de espadas de madeira num conto infantil, mas só podem ser considerados uma traição se ainda quisermos acreditar que temos um país. Traição ao esforço, ao sofrimento e ao sacrifício de milhões de pessoas nos últimos anos. Não se trata já de falta de sentido de estado. Estamos, mais do que isso, perante a ausência total de sentido de estrado. A começar em Passos e a acabar em Seguro, esta gente perdeu já qualquer noção do ridículo.
Rui Rocha in Delito de opinião

Palhaçada
Uns palhaços do Ministério Público resolveram arquivar a queixa crime de um palhaço que mora em Belém, por se ter sentido ofendido por um palhaço que escreve nos jornais lhe ter imputado essa nobre profissão. Os palhaços do Ministério Público arquivaram rapidamente o processo contra o palhaço jornalista, fundamentando a decisão no princípio da “liberdade de expressão”, que “é válida não apenas para juízos de valor favoráveis, inofensivos ou indiferentes, mas também para os que ferem, chocam ou incomodam”. Por isso, chamar “palhaço” ao Presidente da República Portuguesa, ou a qualquer outro titular de um órgão de soberania, ou mesmo a qualquer cidadão português, passa a ser, a partir de agora, um direito fundamental de todos os portugueses, que a Constituição protege e o Ministério Público tutela. Aplicando-se o mesmo critério a outros adjectivos que “ferem, chocam ou incomodam”, o nosso direito fundamental à liberdade de expressão ficará consideravelmente ampliado. É só começar…
Rui A. in Blasfémias


O partido Unipessoal

Se o CDS tivesse actualmente existência além da figura do seu líder, Paulo Portas seria rapidamente afastado da liderança do partido.

Como não tem, a liderança do partido deverá estar segura e só uma derrota eleitoral esmagadora do CDS poderá – eventualmente – levar ao afastamento de Portas.
André Azevedo Alves n'O Insurgente


Um país à deriva
A política portuguesa é anedótica. Até os supostos "homens de Estado" não têm sentido de Estado. A irresponsabilidade grassa como fogo ao vento. Portas limita-se a fazer jogada política, saindo de governo impopular para ingressar no próximo governo de coligação com o PS. O CDS, aliás, fica muito mal na fotografia. Sempre fez jogo duplo: ora era o baluarte da coligação, ora o maior crítico do Governo. A saída de Portas é meramente o corolário desta estratégia. Passos Coelho acaba punido pela sua manifesta impreparação, pois não definiu um claro rumo político, não reconheceu erros próprios e nunca se preocupou em manter o Governo coeso.
E o país? O país continua a ser um joguete nas mãos de políticos incompetentes, arrogantes e mesquinhos.

José Gomes André


Exultemos

Agora é que vai ser. Por um momento é que vai ser. O povo exulta, Gaspar foi embora. Portas exulta. Zorrinho aplica-se em novas metáforas, todas elas de grande efeito nas escadarias do parlamento (daquelas que só os alentejanos se riem). Abreu Amorim ganha a câmara de Gaia por larga maioria. Arménio Carlos exulta. A direita se faz favor exulta gravemente e com tons de moral repenicada porque o mal de todos os males acaba de sair do governo. O Dr. António José Seguro pede uma audiência ao presidente da República e, de caminho, vai pedir a demissão de todo o governo, o regresso do bem, a taxa de desemprego inferior à média europeia e a satisfação do povo. O povo, esse, exulta também porque o preço dos telemóveis vai baixar e o décimo terceiro mês vai ser reposto na altura exacta. A direita se faz favor gostava de Gaspar, mas isso era se Gaspar, caralho, fizesse reformas e se, com as reformas, contentasse o povo inteiro, baixasse os impostos e subisse os impostos, cortasse na saúde e aumentasse os gastos na saúde, fosse social e acabasse com o rendimento mínimo, fetejasse a lavoura e acabasse com a agricultura, isso sim. Há melhor remédio, e eu proponho-o com todas as letras: o Presidente não deve ir para as Selvagens e, em vez disso, demite todo o governo. O povo fica muito contente e deixa que o PS, o PCP, o BE e até o PP, formem um governo que agrade aos portugueses e seja chefiado pelo Dr. António José Seguro, que compreende os portugueses melhor do que ninguém. O Gaspar é um criminoso e merece ir embora, Mário Nogueira exulta, Arménio Carlos deixa de incitar o povo à revolução, e o fedelho do BE de que me esqueci o nome, mas que é o menino de ouro do BE com aqueles casaquinhos de bombazine de cor de merda, vai a ministro da solidariedade, os ricos pagam a crise e os taxistas voltam a odiar os pretos. A Dra. Ana Drago também vai a ministra e o Prof. Boaventura fica procurador-geral e nas horas livres escreve manuais escolares para crianças que vão participar na vida cívica com brio e elegância. Sendo assim, exultemos, mudemos o disco para Jerónimo de Sousa dançar a chula e Sócrates vai a eurodeputado. O povo fica contente. Quem somos nós para desmenti-lo? Viva o povo, viva.

Frederico V. Gama in Atentado ao Poder