sexta-feira, 5 de julho de 2013

Experiências post-mortem

Cinco Dias


No passado dia 27 este Governo morreu, às mãos dos trabalhadores, na poderosa greve geral que estes vibraram sobre ele. A morte foi sendo revelada aos bocadinhos durante os dias seguintes: primeiro com a saída de Gaspar, depois com a saída de Portas, e agora com as consabidas demissões de Mota Soares e Assunção Cristas. Este parte, aquele parte, e todos, todos se vão. Contudo….

….contudo, Passos Coelho decidiu que mesmo sem maioria absoluta (nem no mais absurdo raciocínio se admitiria que o CDS retirasse todos os seus ministros do Governo alegando falta de credibilidade e deslealdade na tomada de decisões do Primeiro-Ministro - e continuasse a suportar o Governo no Parlamento!) iria continuar a governar. Com naqueles filmes em que uma infeliz personagem cai de uma ribanceira abaixo e se agarra a um ramo qualquer que encontra pelo caminho, Passos Coelho sabe-se condenado a estatelar-se no fundo da ravina mas segura-se, com certa estupidez e inútil resistência, à réstea de apoio que ainda tem. Segura-a primeiro com a mão toda, depois com um só dedo, e agora com a última cabeça de dedo que ainda lhe resta, em esforço, suando, sem saber se cairá porque esse dedo escorrega, lhe dói, ou porque o ramo parte. Sabe todavia que há-de cair e morrer – e brinda-nos com um espectáculo lúgubre, de um chefe de Governo já morto que ainda nos assombra e vai discursando. Sou pouco impressionável, confesso, a questões que se relacionem com mortos e espiritices – mas esta fantasmagoria até a mim me deixa incomodado.Evidentemente, e como já todos percebemos o que por aí vem, até a múmia presidencial já começou a mexer, convocando reuniões com os grupos parlamentares e com o Chefe de Governo, para o dia de amanhã. Quanto a Passos, irá a Berlim receber do império as orientações necessárias sobre os termos em que se processará a sua saída do cargo de régulo da província portuguesa, já bastante adiantadas desde a ida de Seguro e Portas ao último encontro do Clube Bilderberg, dizem as más línguas. Tudo muito previsível, como previsível é a saída de um Governo de Bloco Central das próximas eleições, num «remake», já há muito avistado por quem anda prevenido, do caso grego. Quanto a mim, venha ele e venha depressa: quanto mais cedo acabar esta contradança estapafúrdia em que PS e PSD fingem ser partidos diferentes para aplicarem sistematicamente o mesmo programa há 37 anos, melhor será para o povo, e mais depressa acaba este caminho insano rumo ao desastre nacional.