segunda-feira, 8 de julho de 2013

O navio fantasma

Pacheco Pereira


A demonização das eleições é um dos traços autoritários mais preocupantes dos dias de hoje. As eleições são apresentadas como sinónimo de um "país que pára", um acto inútil "porque tudo fica na mesma", um enorme desperdício de dinheiro a evitar a todo o custo. Ouvindo com atenção os argumentos hostis à possibilidade de eleições imediatas percebe-se que eles não dizem respeito apenas à antecipação de eleições no actual contexto de crise, mas a todas as eleições, às eleições de per si. São, no seu entender, um momento anti-económico e um obstáculo a que o país "trabalhe" e "ande para a frente". A questão tem a ver com a ideia de que a democracia é uma perturbação inaceitável, ou apenas aceite no limite da condescendência, para um ideal de funcionamento tecnocrático, aplicado por uma burocracia "racional", a mando de não se sabe de quem.
PS: Os mesmos que se queixam de que, se houver eleições, "o país pára oito meses" (uma patetice sem qualquer correspondência com a realidade), andam há muito a prometer que encurtam os prazos eleitorais na lei, e, de legislatura em legislatura, não tomam nenhuma iniciativa nesse sentido, mantendo prazos e tempos de campanha excessivos.(...)
Há crises úteis e crises inúteis. Com todos os riscos, eu penso há muito que uma crise pode desbloquear os impasses políticos do país, melhorar as condições de negociação com a Europa (a história está cheia de exemplos deste tipo), e travar um caminho que dará cabo do Portugal que há, sem o substituir por nada que não sejam os seus escombros. 

Depois há crises puramente inúteis, como será esta se tudo continuar na mesma. Se for esse o caso, há duas pessoas a quem tem de se apresentar a factura da bolsa e dos mercados do dia de ontem, hoje e seguintes: Portas e Passos. E veremos se o Presidente não se junta ao grupo.Isso significa que Portas e Passos delapidaram nestes dias recursos do país ao nível dos piores meses de Sócrates.(...)
Se Portas voltar ao governo, para além das evidentes questões de carácter, notar-se-á que saiu como ministro e entrará como subsecretário de estado, qualquer que seja o título que se atribua. Se alguma vez pretender exercer mais do que o seu poder nominal, teremos mais uma crise política. Se ficar calado e quieto, apenas a vender a sua imagem, coisa que todos lhe permitirão fazer com cada vez menor preocupação devido ao estado calamitosa da dita, então a "solução" governativa será mais "estável".