quarta-feira, 3 de julho de 2013

Portas e Passos, dois fedelhos

Henrique Raposo

No meu bairro, as senhoras usavam muito uma expressão que serve para descrever Passos e Portas: "fedelho". Pedro Passos Coelho e Paulo Portas comportaram-se como dois fedelhos, dois meninos sem noção do impacto das suas acções, dois egos sem noção dos limites. E já não é a primeira vez: a porta, de facto, vai ser serventia da casa. No caso da TSU e afins, Pedro Passos Coelho não respeitou o parceiro de coligação e, na resposta, Portas não manteve o nível institucional. No meio de um resgate internacional, foram incapazes de se comportar como homenzinhos. Há coisas que não se perdoam.

O filme repetiu-se agora. É evidente que Passos não quis saber da opinião de Portas sobre o substituto de Gaspar. E também é evidente que Portas colocou qualquer coisa à frente dos interesses do país. A escolha de Passos é questionável, mas lançar o país no caos, fazer os juros disparar e, dessa forma, convidar o segundo resgate é ainda mais questionável. O Dr. Portas devia saber que a hipocrisia é uma virtude, sobretudo quando estamos debaixo de um sufoco internacional. Não é "pessoalmente exigível"? Lamento, mas é. No estado em que está o país, um membro do governo tem de saber engolir sapos, tem de saber colocar o país à frente de egos e partidos. O jogo político, neste momento, não pode ser um jogo normal. Qualquer acção deste tipo tem impacto mortal na vida das pessoas. Há coisas que não se perdoam. 

Passados dois anos, a sociedade (não o governo) estava a reagir. O défice externo estava a ser abatido, as exportações estavam a subir, os juros estavam a descer e o desemprego até começou a baixar no último mês. Não por acaso, o meu irmão começou a trabalhar ontem num novo emprego depois de meio ano no desemprego. Não por acaso, conseguiu esse emprego junto do nosso velho bairro, mesmo juntinho à nossa escola primária. Hoje, quando voltar ao novo emprego já cheio de medo de enfrentar nova falência por causa desta brincadeira, o meu irmão vai ouvir a expressão "fedelho" nas conversas sobre Passos e Portas. Na resposta, eu sei que ele vai subir uma oitava, e é assim: "Dr. Portas, Dr. Passos, ide-vos empalar". Há coisas que não se perdoam.