segunda-feira, 30 de junho de 2014

Cem anos depois, o passado continua a assombrar Sarajevo

Num país dividido como a Bósnia-Herzegovina, onde o passado continua a assombrar o presente, as comemorações dos cem anos da Primeira Guerra Mundial são assunto delicado: tanto tempo depois, os olhares cruzados sobre Gavrilo Princip, o sérvio bósnio que assassinou o arquiduque Francisco Fernando a 28 de Junho de 1914, assim precipitando a Europa num conflito que acabaria por se estender ao resto do mundo, mostram que as feridas da sangrenta desintegração da Jugoslávia continuam por cicatrizar. Os concertos que terão lugar na capital, Sarajevo, e em Visegrad, ali assinalando a data que mudou para sempre o século XX, são um sinal de que continua a ser impossível falar do passado a uma só voz.

Em Sarajevo, onde o herdeiro ao trono dos Habsburgos foi abatido a tiro numa manhã do Verão de 1914, a Filarmónica de Viena vai tocar Haydn, Schubert, Brahms e Ravel, em memória do crime que deu início à guerra e encerrou uma era de paz e progresso na Europa. Paralamente, em Visegrad, a principal orquestra da Sérvia interpretará o Concerto de Verão de Vivaldi num tributo a Gavrilo Princip, que os sérvios continuam a ver como um herói cujo acto de bravura deu a machadada final em séculos de ocupação dos Balcãs. A organização está a cargo do cineasta Emir Kusturica. 

Os líderes da Sérvia e dos sérvios bósnios recusaram-se a participar nas comemorações organizadas em Sarajevo, argumentando que a maioria muçulmana da Bósnia e a maioria católica da Croácia estão decididas a impor que Princip fique para a História como um terrorista nacionalista, assim culpando os sérvios em geral pelas guerras que abriram e fecharam o século XX na Europa. Contrariando essa visão, os sérvios vão inaugurar em Visegrad um mosaico representando Princip e os seus colaboradores; um grupo de actores reconstituirá o assassinato de Francisco Fernando e o julgamento do seu jovem assassino de 19 anos, que morreu na prisão, vítima de tuberculose, meses antes do fim da Primeira Guerra Mundial.
O assassinato do herdeiro ao trono dos Habsburgos, disse Kusturica à Reuters, "iniciou a libertação da servidão e da escravatura". "Não vejo por que razão toda a gente haveria de assinalar o dia no mesmo lugar quando as visões sobre este acontecimento são tão desencontradas", reforçou.
Do outro lado da barricada, a mensagem é de união: em Sarajevo, as comemorações terminarão com um musical ao ar livre que junta 280 artistas de toda a Europa, incluindo sérvios, e cujo título, esperançoso, é A Century of Peace after the Century of Wars ("Um século de paz depois do século das guerras"). "Gostaríamos de abrir simbolicamente o novo século com um gesto artístico sobre a paz e o amor", explicou à Reuters o encenador Haris Pasovic. "Representamos uma geração mais nova, comprometida com a mesma ideia básica - a vitória da paz e da vida sobre todas as coisas más que aconteceram", acrescentou o estudante de teatro sérvio Uros Mladenovic.
O Presidente austríaco, Heinz Fischer, encabeça a lista de dignitários que assistirão às comemorações do centenário da Primeira Guerra Mundial na capital bósnia. Os festejos são maioritariamente patrocinados pela França. Com a unidade e a prosperidade da Europa ameaçadas pela crise económica e social, os líderes dos 28 Estados-membros da União Europeia reúnem-se na próxima quinta-feira, dia 3, em Ypres, uma cidade que é sinónimo da morte e do sofrimento causados pela guerra de 1914-1918.

Uma estátua para um assassino
O concerto que a Filarmónica de Viena dá este sábado na Bósnia terá lugar na antiga Câmara Municipal de Sarajevo, onde na manhã de 28 de Junho de 2014 Francisco Fernando e a mulher, Sofia, assistiram a uma recepção pouco antes do atentado fatal.
Um mês depois, o exército austro-húngaro atacava a Sérvia e as grandes potências europeias entraram no conflito. Mais de dez milhões de soldados morreram à medida que os impérios se desmoronavam e o mapa do continente se redesenhava radicalmente.
Reconvertido em Biblioteca Nacional em 1949, o edifício neo-mourisco ardeu em 1992 durante o cerco que manteve a cidade sitiada ao longo de 43 meses. Quase dois milhões de livros foram então destruídos; uma placa entretanto colocada no local denuncia a culpa dos "criminosos sérvios". Meticulosamente restaurado, reabriu em Maio e vai acolher o seu primeiro evento este sábado. Mas os sérvios são sensíveis a qualquer tentativa de estabelecer ligações entre as guerras de 1914-1918 e de 1992-1995.
"Ponderei ir a Sarajevo", declarou o primeiro-ministro sérvio Aleksandar Vucic. "Mas era suposto passar junto de uma placa que refere os 'agressores sérvios fascistas'. Lamento, mas com todo o devido respeito não posso fazer uma coisa dessas."
Muitos bósnios e croatas recordam a ocupação austro-húngara como um período de progresso e vêem em Princip um sérvio nacionalista movido pelas mesmas ambições territoriais que estiveram anos depois por trás das limpezas étnicas da década de 1990. Na sequência da Primeira Guerra Mundial, consideram, o domínio austro-húngaro foi substituído pelo domínio de Belgrado, no contexto do então criado reino da Jugoslávia.
Depois da Segunda Guerra Mundial, e sob o regime socialista jugoslavo, Princip foi oficialmente reabilitado como um combatente pela libertação de todas as nações e de todas as fés unidas por Tito. Mas a desintegração da Jugoslávia, que se pulverizou entretanto em sete novos estados, quebrou qualquer hipótese de unanimidade acerca do seu papel na História. A guerra, fomentada pela Sérvia e pela Croácia, provocou a morte de cem mil pessoas, na sua grande maioria bósnios. Até hoje, continuam a ser descobertas valas comuns.
A casa natal de Princip, no Noroeste da Bósnia, foi demolida, mas foi reconstruída este ano pelos sérvios, que planeiam reabri-la como museu. E entretanto, na metade Leste de Sarajevo, de maioria sérvia, será inaugurada uma estátua do assassino de Francisco-Fernando. Os acordos de paz que selaram o fim da Guerra dos Balcãs dividiram a Bósnia em duas regiões altamente autónomas, distribuindo o poder por facções étnicas antagónicas num sistema que os críticos acreditam apenas ter cimentado as divisões anteriores. Os líderes políticos continuam a enfatizar as diferenças, apesar de uma aparente disponibilidade acrescida entre os bósnios para seguir em frente.
Perante a polémica das comemorações do centenário da Primeira Guerra Mundial, o líder bósnio sérvio Milorad Dodik, que frequentente agita o fantasma de uma secessão, disse aos jornalistas: "Tanto no sofrimento como nas celebrações, sempre estivemos em lados opostos. Isso diz muito acerca do passado da Bósnia, mas também acerca do seu presente." PÚBLICO

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