quarta-feira, 30 de julho de 2014

Não haverá mais bebés. Habituem-se

A cultura em vigor é a maior ameaça à natalidade. A crise financeira agravou tudo


Não foi porque as mulheres começaram a trabalhar que se deu o rombo da natalidade: afinal, as mulheres das classes trabalhadoras sempre tiveram muitos filhos, no tempo anterior à massificação dos métodos anticoncepcionais. Foi a pílula - e muito menos a entrada das mulheres das classes média e alta no mercado de trabalho - a responsável pela queda a pique das famílias numerosas. Muitas dessas famílias numerosas, importa dizer, viviam a pão e água.
À pílula seguiu-se uma dessacralização e uma sacralização, que nos últimos 40 anos funcionaram em paralelo e se foram agravando: as pessoas dessacralizaram a ideia de "casar e ter filhos", mantendo-se na indecisão sobre se era exactamente isso que queriam e no momento em que decidiram - o que foi acontecendo cada vez mais tarde - foram engolidas por uma cultura de "sacralização". A gravidez era, dantes, uma coisa despreocupada. Hoje, os progressos científicos transformaram-na radicalmente: as mulheres grávidas têm mesmo de mudar de vida e hábitos porque os riscos que lhes são hoje apresentados (desconhecidos anteriormente) são medonhos. A gravidez sacralizada é só o princípio - o complicómetro dispara no nascimento do bebé. A cultura em vigor é a maior ameaça à natalidade: as mulheres deixaram de reconhecer o relógio biológico e convenceram-se (também aqui graças ao progresso científico) de que é possível e absolutamente natural ter o primeiro filho depois dos 40 anos. E vão adiando o "momento certo", mesmo que existam condições sentimentais e financeiras. Muitas vezes o momento certo não chega, porque a fertilidade entra em decadência depois dos 35. Junta-se a isto o rol de pressões para que os pais sejam absolutamente perfeitos - e tenham dificuldade em multiplicar a perfeição por dois ou três. À antiga expressão "tudo se cria"
(e muitas vezes criava-se muito mal) sucedeu o oposto: é "tudo" mesmo muito difícil de criar. Esta situação, que mistura o direito à opção com um caldo cultural que transformou o acto normal de ter filhos numa paranóia, é a principal responsável pela queda da natalidade.
Dito isto, a crise financeira veio agravar a situação, que já não era famosa, e juntou-lhe muito desemprego e uma crise de confiança no futuro. As medidas de apoio à natalidade não resolvem a situação mas, de qualquer modo, como mais ou menos explicou Passos Coelho, não haverá dinheiro - "é preciso fazer contas". Com esta cultura e esta política, não haverá mais bebés.

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