sexta-feira, 11 de julho de 2014

Os judeus são maus


Há, no meio nacionalista português, um atavismo que me surpreende de há muito e há-de continuar a fazê-lo. Não é só no português, mas para o caso é esse que me interessa. Consiste na velha história dos judeus como culpados de todos os males do mundo e mesmo dos que surgem em Marte ou em outros lugares eventualmente habitados. Não vou contar aqui a conhecida história da hostilidade ao povo judaico, sei que São Tomás os aponta como responsáveis pela morte de Cristo, mas esquece-se de que os pagãos foram os executores, tal como foram os grandes inimigos do cristianismo durante os primeiros séculos.

Quando leio que os judeus dominam a política mundial, a banca, os negócios, tudo e mais alguma coisa, não sei se hei-de pasmar com a falta de argumentação se elogiar a frutuosa imaginação. Mas, mesmo que assim fosse, só encontraria aqui motivos para elogiar o povo eleito e lamentar os outros. Porque, se os judeus, minoritários como são, dominam o mundo, devem ser mesmo bons naquilo que fazem. E os gentios, ou são completamente incapazes ou preferem servir outros senhores que não os seus. Portanto, um hipotético domínio dos judeus sobre o mundo apenas demonstraria a sua superioridade.
Faria melhor, digo eu, quem anda na área nacional, preocupar-se com problemas reais que afectam o país, com a construção de uma identidade ideológica própria do que importar velhas "teorias" repisadas e sem fundamento de mentores estrangeiros, muitas vezes pouco inteligentes. E, ainda por cima, fazendo aqui par com a esquerda radical, a tal que é tão humanista mas não se importava de ver Israel riscado do mapa.
Evidentemente, não defendo os judeus de forma cega. Evidentemente, gostaria de ver, por exemplo, o Médio Oriente pacificado e dois estados independentes a viverem em paz e sossego. Evidentemente, nada me move contra o Irão, por exemplo, antes pelo contrário (admiro bastante a cultura persa). Mas entre aqueles que proclamam o ódio a um estado que tem direito a existir e resiste há muito e os que vivem no dito estado não deixo de dar razão aos segundos.
Os judeus são arrogantes? são segregacionistas? se são, problema deles. E talvez tenham motivos para isso. A quantidade de grandes escritores, cientistas, criadores oriundos desta gente é impressionante e nós, portugueses, talvez tivéssemos feito melhor em aproveitar o seu saber do que em mandá-los daqui para fora. Eu, pessoalmente, tenho muito orgulho em ser conterrâneo do homem que descreveu, no século XVI, a circulação sanguínea (antes de Harvey) e chegou a médico do Papa. Amato Lusitano é bem o exemplo da genialidade desta gente, que esteve entre nós, foi expulsa e aproveitada por outros. Os judeus dominam a banca? quem mandou os europeus desprezar certas actividades e deixá-las entregues a minorias desde há séculos?
Que os nacionalistas comecem a rever o discurso, a argumentar convenientemente, a deixar as dicotomias absolutas. Isso é para os maniqueus. E nós não somos hereges. Eu, pelo menos, não sou.

Sem comentários: