domingo, 17 de agosto de 2014

Kokito

Excelente artigo de António Araújo no Malomil


Numa das passagens mais comoventes de Errata: Revisões de uma Vida, George Steiner recorda que, quando fez seis anos, o pai lhe começou a ler trechos da Ilíada, principiando logo pelo Livro XXI. Steiner lembra a cruel passagem em que Aquiles, desvairado pela morte do seu amado Pátrocolo, massacra os troianos em fuga. «O meu pai leu o grego várias vezes. Fez-me soletrar as sílabas. O dicionário e a gramática escancararam-se diante dos meus olhos.»


O trecho que provocou tão funda impressão na criança precoce é aquele em que, sem piedade, Aquiles degola o desprezível Licáon, um dos filhos de Príamo.

Aquiles desferiu-lhe um golpe com a espada afiada

na clavícula, por baixo do pescoço; e a espada de dois gumes

penetrou. Prostrado no chão ficou Licáon, estatelado;

seu negro sangue jorrou da ferida e molhou a terra.


(Homero, Ilíada, Canto XXI, 116−119, trad. de Frederico Lourenço)

No ensaio que dedicou às decapitações na arte ocidental, Visions capitales, Arts et rituels de la décapitation, Julia Kristeva escreve, a dado passo, que «o horror destas decapitações e o impacto das suas reproduções inevitavelmente evocam em nós as reportagens fotográficas e televisivas de guerras civis recentes. No Biafra, no Vietname e de novo agora no Ruanda ou na Argélia, onde os fundamentalistas actualmente praticam massacres e cortam o pescoço das vítimas. Estas práticas são tão frequentes em certas regiões do mundo que a opinião pública global, inicialmente chocada, acaba por fechar os olhos e não ligar.» (Julia Kristeva,Severed Heads. Capital Visions, trad. norte-americana, 2012, p. 26). 


Isto leva-nos a Kokito. Mohamed Hachud tem 28 anos. Kokito, nome de guerra. Vivia em Castillejos, uma localidade marroquina junto à fronteira com a praia de El Tarajal, uma povoação costeira do município de Ceuta.Kokito é casado com uma espanhola, Asia Ahmed Mohamed, que viajou até à Síria para se encontrar com o noivo num acampamento do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL ou EIIL), a milícia jihadista que, além de matar soldados e perpetrar execuções públicas nas praças de Al Atarib, adoptou um novo costume: exibir-se com as cabeças decapitadas das suas vítimas. Na cerimónia do casamento, Mohamed ofereceu à noiva um cinto com explosivos, símbolo macabro de união eterna. Antes do casamento, Mohamed comerciava em Castillejos, durante o dia, e às noites reunia com salafistas radicais. Pensava já juntar-se ao ISIL, passando horas a fio na Internet. Kokito foi recrutado por Mustafá Maya Amaya, um paralítico de 51 anos, que, dando ordens através do seu portátil, enviou já dezenas de jihadistas para o Mali, para a Síria e para a Líbia.

A fotografia mostra Kokito com cinco cabeças a seus pés, uma faca ainda ensanguentada e o indicador erguido, em sinal de aviso. Não foi captada ao acaso. Destina-se a enviar uma mensagem: para os seus companheiros de armas, para as suas vítimas mais próximas e para todos nós, que também somos suas potenciais vítimas. A linguagem de Kokito é mais eloquente e directa do que a das pinturas medievais que Julia Kristeva analisou num ensaio denso e muito erudito. «Entram nas aldeias e arrasam-nas. Não há contemplações para com os inimigos. As cabeças degoladas são uma mensagem para que as pessoas vejam o que lhes pode acontecer se não aderirem ou obedecerem», disse há dias ao insuspeito El País um especialista em terrorismo, que acrescentou: «na Síria os jihadistas estão a cometer atrocidades num grau superior ao que vimos em todas as outras guerras.» Os guerreiros da Jihad global dominam as novas tecnologias que, note-se, foram criadas no mundo ocidental, tido por corrupto e satânico. Sempre que conquista uma localidade, o ISIL distribui pen drives com cânticos jihadistas que mostram as operações da milícia sanguinária e condeam a democracia. Mohamed Hachud, Kokito, tem uma conta noTwitter, onde escreveu há tempos: «Um dia voltarei à minha terra para fazer a jihad.»

Existe uma barreira entre nós e a lâmina ensanguentada da navalha deKokito. Essa fronteira não é a linha ténue e prosas que separa Ceuta de Marrocos; ou Marrocos da Península Ibérica, onde o ISIL aspira a reconstruir o Califado. Essa barreira está situada um pouco mais longe, não muito – e chama-se Israel. Considerem isto maniqueísmo, simplificação demagógica, afirmem que o Hamas e o ISIL são realidades diversas, digam o que bem entenderem: a Caixa de Comentários encontra-se ali em baixo, registando com plena liberdade todas as opiniões, por mais insultuosas que sejam.

Nada disto, sublinhe-se claramente e sem quaisquer subterfúgios, significa aprovação acrítica por tudo quanto Israel está a fazer na Palestina contra o Hamas e, já agora, tudo o que o Hamas está a fazer na Palestina contra Israel. Em Israel, um Estado democrático, com eleições limpas e alternância política, opinião livre e imprensa crítica, há muitos que discordam do rumo que a guerra ao Hamas está a tomar. Aliás, por todo o mundo há judeus horrorizados com a violência que alastra, sobretudo quando ela atinge populações civis indefesas. Em Israel pode discordar-se e criticar-se. No mundo de Kokito, não. Ainda há pouco, em Junho deste ano, em Mosul, o bando de Kokito chacinou 13 clérigos muçulmanos sunitas que, apesar de apoiarem as pretensões do ISIL, advogavam alguma moderação nesta barbárie sem fim. 



A indiscutível primazia política, ética e moral de Israel sobre todos os povos em seu redor não lhe confere, por si só, legitimidade para que possa fazer o que quiser, nem lhe dá carta branca para ultrapassar os limites do intolerável. Daquilo que temos por intolerável justamente à luz dos princípios, dos valores e das regras que, repete-se, distinguem Israel de todos os Estados seus vizinhos e das organizações que estes financiam e patrocinam. É imprescindível o diálogo entre todas as partes, na convicção de que com Kokito e a sua navalha não há «diálogo» possível. Estão a ser enviados às dezenas, de Espanha, Marrocos e até Portugal; todos prometem regressar em breve, de navalha em punho. 

E para aqueles que, por cegueira político-ideológica, conspurcam as paredes de Lisboa com grafitos que gritam Free Palestine!, importaria parar por momentos e pensar um pouco. Em Portugal e em Israel, pode dizer-se o que se pensa. Com Kokito, quem se arrisca a pensar pela própria cabeça, perde-a. Perde-a decapitada, no sentido mais literal do termo. Conviria pensar nisso. Se possível, pela própria cabeça. Sem dogmas nem preconceitos.

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