segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Sobre o Algarve - Por Henrique Raposo

Henrique Raposo via Expresso
"Mantenho há vinte anos uma relação de amor-ódio com o Algarve. Para começar, irrito-me com a antipatia militante do algarvio puro, aquele que é típico de Odiáxere, Vila Real, Monte Francisco, Castro Marim ou Monte Gordo, mas que também aparece em cidades como Portimão ou Lagos. Sim, encontrar um algarvio simpático é quase tão difícil como encontrar um Espírito Santo bom de contas. Até parece que os algarvios fazem gala da sua antipatia. E como se a delicadeza fosse sinónimo de fraqueza ou de hábitos efeminados. Em algumas destas terras, até podíamos fazer o casting para filmes de piratas. A tripulação e os amores de Errol Flynn estão em Odiáxere: elas e eles são sempre figuras enxutas, parecem navalhas tisnadas pelo sol e pela ausência do sorriso. Não há gordos nem sorrisos no Algarve. Ora, como é óbvio, esta atitude torna-se desesperante em agosto. Todos os anos, viro costas a empregados e a proprietários de cafés. Não sabem receber. Parece que estão a fazer um favor. Não se mexem. São indolentes e insolentes ao mesmo tempo. Há uns anos, ainda conseguia enganá-los quando começava a improvisar uns diálogos em inglês ou alemão. Mas agora já não dá, eles afinaram o ouvido e não consigo fugir à sina: o lisboeta não merece respeito, é um intruso que se tolera por razões económicas. E como se eles sentissem que os alfacinhas amaricados só estão ali para roubar ou sugar o Algarve.

De onde é que isto vem? Arrisco uma hipótese: os algarvios têm mesmo razões de queixa, porque estiveram sempre desligados do resto do país. Querem exemplos? Quando fez o guia das praias portuguesas, Ramalho Ortigão não indicou nenhuma praia algarvia. Eis um sinal de um país que viveu um século XIX traumático e desagregador. Para capturar o Remexido, guerrilheiro miguelista e algarvio, os liberais fizeram deslocamentos “estalinistas” de populações na serra algarvia e assassinaram centenas de oficiais miguelistas que já tinham deposto as armas. Mais tarde, mesmo depois da paz de 1851, a lei nunca cobriu o sul do país. O caminho entre Lisboa e o Algarve era difícil devido à escassez de estradas e perigoso devido ao banditismo. O Algarve, portanto, foi sempre uma terra a ferro e fogo. As clavinas camilianas não são apenas do Minho. E este clima de violência era reforçado pelos ataques dos corsários berberes. Não é difícil imaginar populações algarvias a defenderem-se sozinhas destes piratas magrebinos, sem qualquer ajuda do Leviatã que não saía de Lisboa e do Porto. O Algarve só começou a ser português nos anos 60 e, mesmo nessa altura, os “camones”, os “bifes” e os “avecs” foram os grandes descobridores.
Se tivermos este passado em mente, compreendemos a tal antipatia algarvia em relação ao lisboeta e a permanente desconfiança perante aqueles que não pertencem à tribo. Mas, lá está, se tivermos a sorte de sermos adotados pela tribo, se conseguirmos convencê-los a baixar a guarda, podemos descobrir que os algarvios e as algarvias podem ser os maiores amigos e as maiores paixões. Um amor algarvio nunca é só um amor de verão. Mas, se não se importam, o lado solar do Algarve fica pró ano.”

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