terça-feira, 11 de novembro de 2014

25 anos da queda do muro: Dez filmes para recordar o Muro de Berlim (e a RDA)


Logo que foi erguido, o Muro de Berlim tornou-se no símbolo mais tangível, concreto e sinistro da Guerra Fria e do totalitarismo comunista, dividindo uma cidade, famílias, amigos e amantes, e passando a representar a cisão do mundo em dois blocos ideológicos incompatíveis. No próprio dia em que começou a ser construído, a 13 de Agosto de 1963, havia um filme americano a ser rodado em Berlim, ‘Um, Dois, Três’, de Billy Wilder, e o cinema, com Hollywood logo à cabeça, rapidamente começou a produzir filmes ambientados na capital alemã dividida, que originaram um subgénero de espionagem. Mais tarde, o cinema alemão começaria também a filmar o Muro, e Berlim cortada ao meio, para reflectir sobre a sua identidade e o significado mais profundo da construção para os berlinenses e para a história da Alemanha. Eis 10 dos filmes mais emblemáticos sobre o Muro de Berlim, a Guerra Fria e também a vida nas duas Alemanhas durante esse período.

 1. ‘Um, Dois, Três’, de Billy Wilder (1963)
Esta comédia satírica de Billy Wilder estava a ser filmada em Berlim quando o Muro começou a ser erguido e a fronteira entre Berlim Ocidental e Berlim Leste foi fechada, obrigando a produção a mudar-se para Munique e recriar lá, parcialmente, a Porta de Brandenburgo. James Cagney interpreta um executivo da Coca-Cola que tem que impedir que a filha de um dos seus patrões se case com um jovem alemão comunista, que a quer levar para Moscovo.  O filme estraleja com gags do tempo da Guerra Fria, e se Wilder se farta de cravar bandarilhas no comunismo, também reserva algumas farpas para o capitalismo consumista, representado pela personagem de Cagney, numa das suas fabulosas interpretações a 200 a hora. O filme foi muito mal recebido pelos liberais mais esquerdistas de Hollywood, que à altura ainda tentavam pintar o comunismo com tintas suaves.


2. ‘O Espião que Veio do Frio’, de Martin Ritt (1965)
Adaptado de um dos melhores livros de John Le Carré por um dos autores do argumento de ‘007-Contra Goldfinger’, ‘O Espião que Veio do Frio’ é o melhor filme tirado de uma obra daquele, e calmamente, o melhor já rodado sobre a Guerra Fria e envolvendo o Muro de Berlim, com uma interpretação esmagadora de Richard Burton no papel de Alec Leamas, um agente inglês que simula passar para o lado comunista. Longe do maniqueísmo espectacular das histórias de James Bond, esta é uma visão amarga,  enviesada  e desencantadamente realista da Guerra Fria, da moralidade movediça do mundo da espionagem e do confronto entre as democracias ocidentais e o bloco de Leste. Le Carré, aliás David Cornwell, sabe bem do que fala, porque trabalhou para o MI6 e esteve colocado em Berlim nesta altura.

3. ‘O Meu Funeral em Berlim’, de Guy Hamilton (1966)
E depois de John Le Carré, o seu colega Len Deighton, num filme assinado por um realizador inglês que também fez filmes de 007. Michael Caine volta aqui a interpretar o papel de Harry Palmer, um antigo ladrão tornado agente secreto, criado por Deighton em ‘O Caso Ipcress’. Palmer é desta vez mandado para Berlim, para coordenar a fuga de um general comunista para o Ocidente, mas as coisas não correm tão bem como se poderia pensar. Para a pequena história dos filmes de Guerra Fria, fica o facto dos guardas russos do lado de Berlim Leste terem tentado impedir a rodagem das cenas em Checkpoint Charlie, usando espelhos para lançar a luz do sol sobre as câmaras da produção e encandear os actores e a equipa técnica.

4. ‘A Cortina Rasgada’, de Alfred Hitchcock (1966)
Hitchcock foi acusado de “anticomunismo primário” por alguma crítica de esquerda por ter rodado este filme de espionagem onde Paul Newman faz um cientista americano que finge fugir para a RDA, onde vai buscar uma fórmula secreta. O estúdio forçou Hitchcock a dar o papel principal a Newman em vez de Anthony Perkins, a escolha do realizador, e o papel feminino a Julie Andrews ao invés de Eva Marie Saint, e ‘Cortina Rasgada’ ficou também marcado por uma zanga entre o realizador e o compositor Bernard Herrmann, que marcou o fim da sua lendária parceria. Apesar de Hitchcock não ter gostado do resultado final, ‘Cortina Rasgada’ tem mesmo assim vários momentos fortíssimos de suspense e um punhado de cenas inspiradas.


5. ‘As Asas do Desejo’, de Wim Wenders (1987)
Realizado dois anos antes da queda do Muro de Berlim, este filme de Wim Wenders é o mais fantástico, poético e emocionalmente atmosférico ambientado na cidade dividida.  Bruno Ganz é Damiel, um dos dois anjos encarregues de percorrer Berlim Oeste, testemunhando a existência das pessoas, captando os seus sentimentos e tentando oferecer-lhes algum conforto.  Damiel perde as asas e torna-se de carne e osso para poder ter mais empatia com os humanos que observa e entendê-los, e trava amizade com um famoso actor americano (Peter Falk) que está em Berlim a fazer um filme policial passado na II Guerra Mundial. Único e belíssimo, com uma Berlim filmada (e sentida) por um cineasta alemão, e fotografada a preto e branco e a cores pelo grande Henri Alekan.


6. ‘The Legend of Rita’, de Volker Schlondorff  (2000)
Nunca estreado comercialmente em Portugal, ‘The Legend of Rita’ (‘Die Stille nach dem Schuss’, no título alemão original) conta a história de Rita Vogt (Bibiana Beglau), uma militante de extrema-esquerda alemã que odeia o sistema capitalista e acredita que é do outro lado do Muro que existe uma socidade verdadeiramente livre, justa e defensora dos trabalhadores e dos seus direitos. Depois de roubar um banco com outros camaradas, Rita foge para o outro lado e, com o beneplácito da Stasi, muda de identidade e instala-se na RDA. Mas o Muro de Berlim cai, a RDA desfaz-se e Rita tem que enfrentar as consequências do seu passado. ‘The Legend of Rita’ inspira-se na vida da militante anarquista Inge Viett, dissidente da Fracção do Exército Vermelho.


7. ‘The Tunnel’, de Roland Suso Richter (2001)
Também nunca exibido em Portugal, ‘The Tunnel’ (‘Der Tunnel’) baseia-se noutra história real, a de Hasso Herschel, um campeão de natação da Alemanha de Leste, que fugiu para o Ocidente em 1961, depois de ter estado preso por contestação ao regime comunista, e mais tarde, juntamente com uma série de amigos, organizou a fuga para Berlim Ocidental da irmã e da sua família, cavando um longo túnel. Além das incríveis dificuldades logísticas que a tarefa envolve, há também que temer as pessoas que, no lado de lá, podem denunciar os fugitivos às autoridades. Roland Suso Richter assinou uma fita tão realista quanto empolgante, que virou um clássico dos “filmes de fuga”.


8. ‘Adeus, Lenine!’, de Wolfgang Becker (2003)
Esta premiada e aclamadíssima comédia dramática de Wolfgang Becker é uma história de amor filial tendo como pano de fundo a queda do Muro de Berlim e o colapso do comunismo. A mãe de Alex (Daniel Bruhl), uma fervorosa e activa comunista , sofre um ataque de coração em 1989 e fica vários meses em coma. Quando acorda, o Muro caiu, e o filho, para a proteger do choque, faz tudo para que, no seu apartamento daquela que foi Berlim Leste, ela não se aperceba que a ideologia que defendia perdeu o combate, e o mundo onde vivia se desmoronou.  Grandes papéis do jovem Bruhl e de Katrin Sass na mãe, e muitas e boas piadas sobre a vida na antiga RDA, o choque da reunificação e a chegada do capitalismo consumista ao Leste.


9. ‘As Vidas dos Outros’, de Florian Henckel von Donnersmarck (2006)
Vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, ‘As Vidas dos Outros’ passa-se em 1984, quando um zeloso capitão da Stasi, Gerd Wiesler (Ulrich Muhe), é encarregue das escutas da casa onde habitam um famoso dramaturgo e a sua namorada, uma popular actriz. À medida que os vai escutando, Wiesler, que gosta e saboreia o que faz, sente-se cada vez mais fascinado pela vida íntima do casal. ‘As Vidas dos Outros’ é parte ‘thriller’ político, parte drama voyeurístico, parte retrato arrepiante de um estado policial onde a privacidade dos cidadãos não vale um tostão furado para o poder. O próprio Ulrich Muhe, que viveu no Leste, foi escutado pela polícia política da RDA e descobriu, depois da queda do Muro, que a mulher, também actriz, era informadora da Stasi.


10. ‘Bárbara’, de Christian Petzold  (2012)
Alemanha de Leste, 1980. Bárbara, uma médica que exerce clínica em Berlim Leste, candidata-se a um visto para sair do país e juntar-se ao homem que ama, que conseguiu instalar-se no outro lado do Muro.  Como castigo, é enviada para um hospital de uma vila no interior da RDA, ficando sob a vigilância da Stasi local. O namorado tenta organizar a sua fuga, e enquanto isso, Bárbara vai tentando ambientar-se à vida no campo, nunca sabendo quem entre os locais ou os colegas poderá ser um informador da polícia política. A excelente Nina Hoss, uma das maiores actrizes alemãs de hoje, interpreta o papel do título, num filme tão interessado na personalidade da sua heroína como no quotidiano vigiado da vida na RDA, e que tem um final surpreendente. Christian Petzold ganhou o Urso de Prata no Melhor Realizador no Festival de Berlim.

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