quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Alemanha: a estratégia de uma grande potência.



No domingo comemorámos os vinte e cinco anos da queda do Muro de Berlim e por isso mesmo nada mais apropriado do que falarmos da Alemanha. Os campeões mundiais são de facto uma grande potência do futebol. Se olharmos «apenas» para os títulos da selecção alemã os números são impressionantes: 4 títulos mundiais e 3 títulos europeus. E perdemos a conta ao número de vezes que a equipa alemã chegou à final destes campeonatos. Ficaram célebres as palavras de Gary Lineker, jogador da selecção inglesa, sobre a equipa alemã: «O futebol é um jogo simples; 22 jogadores correm atrás da bola durante 90 minutos e no final a Alemanha acaba sempre por vencer.» A campanha brasileira foi plena de glória e a Alemanha justificou a sua vitória. Não só por ter imposto a pesada derrota aos anfitriões por 7 a 1 mas também pela forma como jogou desde o início (infelizmente para Portugal…).

Mas esta vitória começou a ser delineada em 2000 após uma campanha inglória no Europeu realizado em terras belgas e holandesas. A Alemanha ficou em último lugar no grupo A atrás de Portugal, Roménia e Inglaterra. Esta derrota foi fundamental e obrigou os jogadores, seleccionador e as estruturas federativas a repensarem o seu modelo de jogo em conjunto com os clubes alemães. Por outras palavras a Alemanha passou a ter uma estratégia sobre o que queria do seu futebol: jogadores com maior capacidade técnica, capazes de pensar tacticamente e formados «em casa». A criação de academias deu os seus frutos a nível dos clubes e também na selecção nacional. A capacidade financeira deste país bem como a alocação dos recursos humanos fez toda a diferença.

Para além deste esforço concertado a nível federativo temos que acrescentar a crescente competitividade da Bundesliga. A liga alemã é um exemplo de modernização de infraestruturas, segurança e bilhetes a preços muito acessíveis. Deste modo, o enorme entusiasmo pelo futebol é reflectido na presença de adeptos nos jogos. Os estádios estão sempre cheios e há quem afirme que é a Bundesliga a rainha das provas em matéria de público: em 2013/2014 a média foi de 42 609 adeptos nos estádios. Para termos uma ideia da força dos números temos ainda que olhar para os clubes individualmente. Na época actual e ao fim de onze jogos o clube que lidera em termos de público é o Borussia Dortmund. O estádio tem a capacidade máxima de acolher 80 720 adeptos e até agora a média é de … 80,340. Sim, eu repito: 80,340. Esta taxa de 99,5% é ainda mais surpreendente se tivermos em consideração que o Borussia Dortmund, apesar da campanha vitoriosa da Liga dos Campões, está em … 15º da Liga. Tem sido um começo muito difícil para aquela que é a segunda melhor equipa alemã nos últimos anos.

Em segundo lugar, temos o colosso do futebol alemão: o Bayern Munique. O líder do campeonato tem uma média de assistência de 99.8% com 71 000 lugares ocupados sendo a lotação máxima de 71,137. Ao longo destes onze jogos o Bayern ainda não perdeu e concedeu três empates. Do ponto de vista da história do futebol o Bayern tem um lugar privilegiado: 23 vezes campeão nacional e vencedor de 5 «ligas dos campeões». Paralelamente, o Bayern tem um enorme apoio da sua região, a Baviera, e tem efectuado uma gestão financeira muito criteriosa. Os resultados estão à vista e o Bayern é o quarto clube de futebol mais rico do mundo segundo a revista Forbes. Esta riqueza pode também ser constatada por um dos principais patrocinadores deste clube que também tem a sua sede em Munique: a Allianz. Esta relação é tão forte que o nome do estádio do Bayern é justamente Allianz Arena.

O poder financeiro do Bayern tem-lhe permitido efectuar algumas contratações importantes. Após dois anos notáveis com o treinador Jupp Heynckes o Bayern decidiu apostar em Pep Guardiola. Esta contratação diz muito da capacidade de atracção deste clube. Depois de quatro anos fabulosos à frente do Barça e de um ano de sabática Pep Guardiola optou por Munique. A sua primeira época a nível nacional foi extraordinária (dezanove pontos de diferença para o segundo classificado) embora tenha ficado aquém do esperado a nível europeu. E a derrota com o Real Madrid na meia-final foi muito dura. Mas este ano o Bayern parece-me mais consolidado e com um estilo de jogo mais solto. Eu diria que é um sério candidato a vencer a Liga dos Campeões. Claro que tudo pode acontecer como aliás o próprio Bayern bem sabe. Quem não se lembra da final de 1999? A equipa alemã a controlar o jogo e a vencer por uma bola a zero e nos minutos finais a equipa de Sir Alex Ferguson marca dois golos. Mais ainda, os golos foram apontados por dois jogadores, Teddy Sheringham e Ole Gunnar Solskjaer, que foram suplentes. Foi um fim de jogo absolutamente inesperado e que deixou a equipa alemã em estado de choque.

Paralelamente, a equipa bávara foi o «esqueleto» da selecção nacional alemã campeã no Brasil. Se olharmos para a equipa inicial que jogou a final contra a Argentina encontramos Manuel Neuer, Thomas Müller, Bastian Schweinsteiger, Jérôme Boateng,Toni Kroos (agora no Real Madrid) e o capitão Philipp Lahm (e claro Mario Götze que entrou e marcou o golo da vitória). A estes temos que juntar a qualidade de David Alaba, Arjen Robben, Franck Ribéry, Robert Lewandowski, Juan Bernat, Rafinha e Mehdi Benatia. Há ainda jogadores como Thiago Alcântara e Javi Martinez com lesões muito graves. E claro Xabi Alonso. É impressionante ver Xabi jogar no Bayern como se estivesse neste clube há anos. É de facto um grande jogador e dá ao meio-campo da equipa bávara uma excelente capacidade de recuperação e de compensação.
E há quem diga que a próxima grande contratação será Marco Reus … do rival Borussia Dortmund. Se assim for, será o terceiro jogador excepcional a sair de Dortmund para Munique depois de Mario Götze e Robert Lewandowski. Estas contratações têm levado a os dirigentes do Dortmund a declararem que o Bayern os está a tentar destruir. De certa forma, o Borussia é vítima do seu sucesso sendo quase impossível aos jogadores resistirem aos milhões «bávaros». Outro jogador de que se tem falado muito é o capitão do Borussia, Mats Hummels, um dos melhores centrais do mundo. Os clubes mais interessados são o Arsenal e o Man United e há quem aponte a sua saída em Janeiro.
A rivalidade entre Munique e Dortmund estende-se a outras cidades e regiões alemãs. Tal como no caso italiano a Alemanha foi unificada na segunda metade do século XIX e, por isso, há fortes identidades regionais que encontram no futebol uma manifestação particularmente poderosa. E o mesmo se pode dizer do orgulho na selecção – Die Mannschaft – enquanto expressão do nacionalismo alemão sobretudo no pós-Guerra Fria.
O futebol alemão é, hoje em dia, uma referência a nível de planeamento estratégico. Se olharmos para os candidatos a Bola de Ouro temos seis jogadores do Bayern, os alemães Mario Götze, Philipp Lahm, Thomas Müller, Manuel Neuer, Bastian Schweinsteiger e o holandês Arjen Robben. E apesar de Toni Kroos ser agora jogador do Real Madrid é justo dizermos que é um «produto» do Bayern onde chegou com 15 anos. A lista de dez candidatos para vencer o prémio de melhor treinador contém, para além do homem do Bayern de Munique, Pep Guardiola, dois alemães: Jürgen Klinsmann e Joachim Löw.
Quando pediram a Xabi Alonso que comparasse o Real Madrid ao Bayern de Munique a resposta foi curiosa. Para Xabi, «O Real Madrid é como o rock’n’roll, enquanto o Bayern de Munique funciona mais como o jazz». Porquê? Em Madrid, «tudo é mais rápido e mais directo. O Bayern é mais paciente, preciso e elaborado».

Quem diria?

Raquel Vaz-Pinto

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