sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Dos comentários valiosos II - Sobre Portugal e a RDA

Fernando Vieira, comentando esta notícia no Observador

Em finais da década de 80, antes da queda do muro, tive o privilégio de conviver, por motivo de trabalho, com um cidadão da então RDA (República Democrática da Alemanha), de seu nome Hans e de cujo sobrenome já não me lembro. A empresa para a qual eu trabalhava tinha adquirido algumas máquinas da RDA, e o Hans foi o técnico que veio para nos ajudar a instalar e colocar as referidas máquinas em funcionamento. É verdade, não se admirem, porque nessa época a RDA exportava máquinas para os países ocidentais, não só para a empresa que eu trabalhava, que era uma das maiores multinacionais do ramo no mundo e de origem francesa, mas também para muitas outras empresas.
Como eu era o responsável pela manutenção, e o único técnico da empresa em Portugal que falava inglês, era comigo que o Hans falava sobre quase todos os assuntos, não só de trabalho, mas também pessoais. Ele já tinha estado em outros países de quatro continentes. As despesas de alojamento e de alimentação do Hans eram por conta da empresa dele, e o transporte de ida e volta à nossa fábrica era por conta da nossa empresa. O Hans estava instalado numa pousada da região, que era a mais barata e nem sequer tinha restaurante. De manhã, alguém da nossa empresa passava na pousada para o trazer, e ao final da tarde levava-o de volta, não para a pousada, mas sim para o centro da cidade, porque ele queria passear e ver as montras das mais diversas lojas. Depois, ele seguia a pé para a pousada que ficava a 8 Km de distância do centro, para o merecido descanso.

A nossa empresa não tinha cantina, apenas um refeitório para quem levasse comida de casa, e o Hans ia almoçar lá, leite e pão sem mais nada, que ele mesmo levava. Um dia, ele ficou indisposto, quase desmaiou, e eu mesmo levei-o ao hospital local. Lá, fiquei a saber que ele estava com a pressão arterial demasiado baixa, e que, além de almoçar só pão e leite, raramente jantava. Porquê? Porque os dólares que a empresa dele lhe passara para o seu alojamento e alimentação, cujo valor não posso precisar agora, eram o valor máximo que alguma lei (estúpida) da RDA permitia, em função do número de dias que estaria fora do país dele. Esse valor mal dava para pagar a pousada barata. Falei com a direção da empresa e passei a levá-lo a almoçar comigo e a pagar-lhe também o jantar.
Entretanto, ele ia-me contando como vivia na RDA, com um salário muito melhor que o nosso (quase o triplo), com uma casa com aquecimento central muito mais barata do que seria possível em Portugal, com um carro mais barato do que os que se podiam comprar em Portugal, com vestuário e alimentação mais baratos do que em Portugal, etc. Mas, o carro por exemplo, ele teve que esperar 8 anos para o poder comprar, não por falta e dinheiro, e sim por causa da escassez de oferta. Os produtos alimentares eram em abundância, mas escassos em quantidade de géneros, por exemplo, não tinham bananas e outros frutos meridionais, etc. Com os produtos de vestuário passava-se o mesmo, eram quase todos iguais, não havia calças jeans por exemplo, quem as quisesse teria que as ir comprar na Hungria, que era o país do então Bloco de Leste que mais produtos ocidentais tinha, apesar de também haver restrições para comprar quantidades maiores.
Por isso o Hans gostava tanto de ver as montras cá, apesar de não poder comprar quase nada.
Quando lhe perguntei se ele gostaria de viver fora da RDA, ele respondeu-me que não, que lá era a terra dele, mas que gostaria muito que lá se pudesse viver como na Alemanha Federal ou na França. E gostaria de viver em Portugal? Perguntei. Portugal é muito bonito mas o vosso nível de vida é muito baixo, respondeu ele.
Estávamos em 1987. O sonho do Hans concretizou-se pouco depois. O meu não.

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