quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Fortuna, Jugoslávia, Dinamarca e jogar em casa.

Raquel Vaz-Pinto via Malomil

O futebol de hoje é um desporto altamente profissional em que nada é deixado ao acaso. Jogar ao mais alto nível implica, para além do aperfeiçoamento técnico, preparação física e mental, treinos infindáveis com jogadas, transições, posicionamento táctico e marcações. A evolução da equipa técnica é disso um excelente reflexo. Se olharmos para o Bayern Munique a equipa de Pep Guardiola conta com dois treinadores adjuntos, um treinador para guarda-redes, cinco fisioterapeutas, uma unidade médica com quatro profissionais, incluindo um especialista em cardiologia, e três preparadores físicos. Claro que ainda faltam os «observadores» que fazem a prospecção e a análise de jogadores e muitos, muitos mais. Guillem Balague na sua biografia sobre o treinador catalão revela que a equipa técnica era constituída por mais de vinte pessoas.

Um dos aspectos mais reveladores da rigorosa preparação a que os jogadores estão sujeitos é o «treino mental». É muito importante prepará-los para uma época muito intensa e longa (alguns diriam excessiva) que começa em Agosto e termina em Junho. Este ano, a nível de clubes tudo acaba na primeira semana de Junho com a final da Liga dos Campeões em Berlim e, uma semana depois, temos a sexta ronda do apuramento para o Euro 2016. A preparação «mental» é talvez o aspecto mais difícil de trabalhar e nem todos conseguem chegar ao nível de concentração total do Chelsea de Mourinho ou do Atlético de Madrid de Simeone. Se é certo que a equipa de Simeone tem tido um arranque de época mais irregular ninguém tem dúvidas que em campo farão jus ao lema dos colchoneros: «juega cada partido como si fuera el último».



Para além de tudo isto há ainda aquele elemento a que chamamos… sorte ou azar. Desde sempre a humanidade tem tentado lidar com o imprevisível. Os antigos gregos apelavam a Tychee os romanos à deusa Fortuna. Talvez o romano que melhor tenha personificado a Fortunaseja Júlio César como nos descreve Adrian Goldsworthy na sua excelente biografia. Talvez influenciada pelo jogo de apuramento para o Euro 2016 entre a Sérvia e a Dinamarca de sexta-feira lembrei-me do Campeonato Europeu de 1992. E, pensando bem, não há melhor exemplo da Fortunano futebol. A Jugoslávia foi ao longo da sua história uma boa escola de futebol (vice-campeões europeus em 1960 e 1968) e no início dos anos noventa tinha uma equipa extraordinária. Desde logo os seus jogadores tinham sido campeões mundiais sub-20 em 1987. No Chile brilharam talentos como Robert Prosinecki e Davor Suker. E no Campeonato do Mundo de 1990 os jugoslavos deixaram uma excelente impressão perdendo nos quartos-de-final com a selecção argentina e…nos penaltis.
 

Este poderio jugoslavo também encontrou expressão na final da Taça dos Clubes Campões Europeus de 1991 em que o Estrela Vermelha de Belgrado bateu o Marselha. O grande jogador jugoslavo era Robert Prosinecki. Por tudo isto muitos apontavam a Jugoslávia como sendo uma das favoritas à vitória no Euro 1992. No entanto, a equipa jugoslava foi uma das muitas vítimas de uma guerra civil de tal maneira brutal e cruel que levou à criação de um tribunal internacional para julgar as atrocidades cometidas. Após a morte do ditador Tito em 1980 a Jugoslávia tinha-se vindo a tornar cada vez mais uma «mera» associação de várias nações. A tentativa de fomentar o nacionalismo sérvio sob a liderança de Slobodan Milosevic foi a gota de água para os croatas, bósnios, eslovenos, macedónios, kosovares e montenegrinos.


O fim da Jugoslávia significou o fim de uma grande selecção. A qualidade dos seus jogadores e em especial o terceiro lugar da Croácia no Mundial de 1998 levou muitos a pensar o que a selecção «jugoslava» teria sido capaz de alcançar. Ainda hoje são muito frequentes os comentários televisivos e na imprensa sobre esta selecção imaginária. Aliás todos os anos em que temos Campeonatos da Europa ou Mundial a pergunta vem à superfície: e se a equipa de futebol jugoslava ainda existisse? É realmente muito tentador imaginarmos uma selecção com os bósnios Edin Dzeko do Man. City, Miralem Pjanic da Roma e Sened Lulic da Lazio, o montenegrino Stevan Jovetic e o sérvio Koralov do Man. City, os sérvios Ivanovic e Matic do Chelsea, o esloveno Valter Birsa do Chievo, e os croatas Mário Mandzukic do Atletico de Madrid, Ivan Rakitic do Barcelona, Luka Modric do Real Madrid, Mateo Kovacic do Inter ou Danijel Subasic do Mónaco. A este conjunto de estrelas teríamos também que acrescentar jogadores cujas famílias fugiram do conflito e que adoptaram a nacionalidade do país onde vivem. Na selecção suíça temos, por exemplo, Xherdan Shaqiri que joga no Bayern de Munique, Blemi Dzemaili que este ano alinha pelo Galatasaray e Valon Behrami no Hamburgo. Mas tendo em conta todo este talento tenho a certeza que a «Jugoslávia» seria uma forte candidata a ser campeã da Europa e do Mundo.
Sorte diferente teve a selecção chamada a substituir a Jugoslávia no Campeonato da Europa em 1992: a Dinamarca. O pedido oficial chegou apenas dez dias antes do começo do campeonato e embora a selecção dinamarquesa estivesse de sobreaviso, tiveram pouco tempo para se preparar «à séria». A sua participação no campeonato realizado nos vizinhos (e rivais) suecos fez de facto história: a Dinamarca foi campeã da Europa. Este feito deixou todos os que assistiram a esta prova incrédulos sobretudo se pensarmos que a selecção dinamarquesa não contava com a sua grande estrela, Michael Laudrup, e também na qualidade das outras equipas como a francesa, alemã e holandesa. Como foi possível? Desde logo a enorme capacidade colectiva e os talentos que sobressaíram nesta prova. Há muitos exemplos mas destacaria o guarda-redes Peter Schmeichel que teve na final contra a Alemanha o jogo da sua vida. Como nos diz a própria UEFA Schmeichel defendeu tudo o que havia para defender. A fotografia de um dos heróis dinamarqueses, Brian Laudrup, com as mãos na cabeça fala por si só.

Dinamarca, campeã da Europa em 1992
Como foi possível? Eu diria que o factor crucial, para além do talento e profissionalismo, foi a gestão das expectativas. Dito de outra forma, ninguém estava à espera que uma selecção repescada sequer passasse da primeira fase. E por isso me parece que jogar sem qualquer tipo de pressão fez toda a diferença. À medida que iam vencendo os jogos os jogadores dinamarqueses foram ganhando uma enorme confiança mas sem pensarem seriamente na possibilidade de serem campeões. E em matéria de expectativas também se fala muitas vezes do factor «casa», ou seja, que as selecções anfitriãs dos campeonatos do mundo e da Europa contam com um factor adicional: o factor público. Será mesmo assim? Ou é um factor extra de pressão para os jogadores? Se olharmos para a história destas duas provas internacionais temos respostas diferentes. Das vinte vezes que o Campeonato do Mundo foi organizado só seis vezes a equipa anfitriã foi vitoriosa. Aliás jogar em casa para o Brasil tem sido uma … tragédia. Das duas vezes que o Brasil organizou esta prova perdeu a final no Maracanã perante o Uruguai em 1950 e este ano aquela meia-final com a Alemanha…

Pelo contrário, o Uruguai e a Argentina foram vencedores, respectivamente em 1930 e 1978. E se olharmos para os países europeus temos a Itália que venceu em 1934 e nem chegou à final em 1990. O mesmo aconteceu com a França e a Alemanha que, respectivamente, não chegaram à final de 1938 e 2006 mas venceram em 1998 e 1974. Já a Inglaterra foi vitoriosa em 1966 (infelizmente para nós…). E em relação ao Campeonato da Europa? Das catorze edições da prova apenas três foram ganhas pela equipa anfitriã: Espanha em 1964, Itália em 1968 e França em 1984. E tirando Portugal em 2004 nenhuma das restantes equipas anfitriãs chegou à final.
O futebol, tal como todas as actividades humanas, não é imune à Fortuna. E é justamente essa imprevisibilidade que o torna ainda mais apaixonante.

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