terça-feira, 18 de novembro de 2014

Monopólio circense

Vítor Cunha in Blasfémias


Portugal não precisa de um Syriza ou Podemos enquanto tiver o Partido Socialista na oposição. A parte que interessa nesses partidos-zeitgeist é dizer larachas com unicórnios para uma população descontente e saudosista de uma miséria comunista que nunca viveu e uma arrogância de generation gap tardio quando os meses sem sol inviabilizam a esplanada marítima. Uma espécie de Aum Shinrikyo sem acesso a gás sarin, só à TV, em competição com As Tardes da Júlia e a terceira telenovela da noite, a Dentro de Ti Vejo um Mar de Bílis. Em Portugal, o PS faz essa função sozinho, esvaziando até o bicéfalo Bloco de ambições nas áreas pós-modernistas e altamente fracturantes, tais como o aborto de transexuais ou a eutanásia de católicos.Tudo muda quando chegam ao poder. É o “pântano”, o “choque fiscal”, o “choque tecnológico”, a 10ª revisão da sustentabilidade por mais 200 anos da Segurança Social feita a menos de 4 anos da anterior revisão de sustentabilidade que garantiria 500 anos… Mas, tirando um ou outro saloio que acredita mais na divindade de si próprio que nas larachas proferidas, lá regressam os mercenários do voto ao mainstream social-democrata falido no preciso momento em que chegam à gamela, enquanto der, enquanto chegar, enquanto não rebentar outra vez e adeusinho, “adoro-vos a todos” mas tenho mesmo que partir naquela estrada onde um dia cheguei a sorrir, rumo ao comentário político er… independente.
O Bloco tem uma intenção de voto que ronda os 4,5%, o Podemos espanhol uns 25%. O que isto demonstra é uma maturidade século XXI do eleitorado português: dispensam novos palhaços quando os velhos pantomineiros chegam perfeitamente para o efeito pretendido.

2 comentários:

Afonso de Portugal disse...

Uma boa análise, mas talvez demasiado optimista. Eu creio que o verdadeiro motivo pelo qual os portugueses não votam mais no BE ou na CDU é, pura e simplesmente, por terem medo do que possa acontecer a seguir.

Não se trata de dispensar "novos palhaços", trata-se de evitar surpresas potencialmente desagrdáveis.

Para uma grande percentagem de portugueses, o PS não representa aquilo que o Vítor Cunha escreve neste artigo. Representa apenas a oportunidade de punir temporariamente o PSD/CDS sem correr o risco de uma catástrofe nacional. Porque no fundo, a esmagadora maioria dos portugueses já não vê grandes diferenças entre estes três partidos, simplesmente tem medo de votar nos "comunas" ou nos "fascistas".

De resto, sugerir que o eleitorado espanhol é menos maduro do que o português quando o primeiro é de longe mais instruído (todos os indicadores objectivos o confirmam) é, no mínimo, problemático.

A-24 disse...

Caro Afonso,

Concordo consigo na generalidade e acrescento que movimentos cívicos que se tornam em partidos políticos como o Podemos, nunca triunfariam em Portugal, pois o eleitorado nacional é muito conservador e tende a ver os partidos aos quais vota quase como clubes de futebol, ou seja, muito dificilmente mudam.

Paralelamente a isto, o que explica o sucesso (em sondagens) de partidos como o Podemos ou o Syriza é o facto de os eleitores quererem dar um voto de protesto aos socialistas e sociais democratas que são quem ordena na Europa desde há várias décadas ainda que em muitas ocasiões, essa vontade nem chega à urna de voto e não me surpreenderia que até às legislativas espanholas do próximo ano este Podemos já se tenha esfumado.