terça-feira, 18 de novembro de 2014

Noutro tempo



Dos primeiros anos da minha vida guardo memórias difusas de uma Lisboa que já não existe, com lojas que se chamavam Val do Rio e tardes enormes em que o tempo de brincar parecia a eternidade.
De vez em quando, relembro de súbito cheiros, sabores, frases, pedaços de conversas e figuras que marcaram esses dias, agora tão distantes.
Pode ser o cheiro da cera nas enormes tábuas de madeira do chão da nossa casa, o aroma inconfundível do creme Nívea sempre associado ao sol e à praia, ou da pasta da escola onde se misturavam restos de aparas de lápis e o saco da merenda com migalhas de pão barrado de Tulicreme.
Nessa época éramos todos sócios do Centro Diese Juvenil e guardávamos religiosamente uma fotografia autografada do António Feio, que era o sócio número um. Jogávamos ao prego na praia, em grupos grandes de primos e de amigos, que se juntavam debaixo do mesmo toldo, tardes a fio, nos dias de férias que pareciam não ter fim.
Tudo era ao mesmo tempo simples e misterioso, e acreditávamos sem pensar muito nisso que a vida era mais ou menos como o universo de fantasia e realidade misturadas que líamos nos livros dos Cinco e dos Sete, ou noutros romances de aventuras.
Relembro tudo isto no dia em que desapareceu Anthímio de Azevedo, também ele uma figura incontornável dessa altura, que nos entrava casa dentro todas as noites e com quem aprendemos que o Anticlone dos Açores é que era o responsável pelas variações de sol ou chuva e nos habituámos a dizer "acentuado arrefecimento nocturno", antes de perceber o que as palavras significavam realmente.
Entre esse tempo antigo e o de agora quantas alegrias, tristezas, ansiedades e emoções, risos, lágrimas, abraços e inquietudes marcaram as nossas vidas?
À boa maneira proustiana, basta um pequeno nada para nos transportar involuntariamente para um passado longínquo, feito de vida despreocupada e imaginação à solta, entretanto perdido no mais fundo de nós.
E é uma nostalgia boa que toma conta de nós assim de repente, sem dramas, nem mágoa, nem saudade, deixando apenas existir o lado mais enternecedor da lembrança.

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