terça-feira, 25 de novembro de 2014

O ar da Rússia cura a homossexualidade

Não é só a democracia que está em regressão no mundo: é também a verdade, como se vê na Rússia de Putin.

Há uns anos que o actor Gérard Dépardieu faz parte, com o espião americano Edward Snowden, da pequena colecção de refugiados ocidentais reunida por Putin. Numas memórias recentes (Ça c’est fait comme ça), Depardieu descreveu a sua homossexualidade juvenil. O pormenor inspirou logo ao deputado Vitaly Milonov a tese de que terá sido o ar russo a “purificar” Depardieu de todos os vestígios de uma homossexualidade causada pela atmosfera de corrupção moral no Ocidente. Em qualquer lugar a oeste da Crimeia, Milonov nunca teria saído da franja alucinada das caixas de comentários anónimos. Na Rússia de Putin, é uma das estrelas da Rússia Unida, o maior partido russo e a base eleitoral do presidente. Foi ele, em 2012, com o apoio da igreja ortodoxa, quem promoveu a lei contra “propaganda homossexual” em São Petersburgo. Há dias, exigiu que o CEO da Apple fosse proibido de entrar na Rússia por ser gay confesso. Aparentemente, não o incomoda privar Tim Cook dos efeitos terapêuticos do ar russo.
Estes episódios são importantes para colocar na devida perspectiva a invasão russa do leste da Ucrânia, agora acompanhada por violações frequentes do espaço aéreo e marítimo ocidental. É porque está muito mais em causa do que as fronteiras europeias.
A nova tensão leste-oeste podia servir apenas para recordar que os governos russos não se conformam com a perda do império soviético. Mas à Rússia de Putin não basta ter um conflito de interesses com o Ocidente. O regime sente necessidade de mais: de se separar filosoficamente, moralmente dos ocidentais. Não voltou ao marxismo-leninismo (embora tenha reactivado várias lendas da propaganda soviética, como no caso do pacto entre Hitler e Estaline), mas não hesita em recorrer ao muro de homofobia com que muitos Estados procuram hoje diferenciar-se do Ocidente e barrar a sua influência.

Putin pôs a Rússia, como nos tempos soviéticos, a viver num universo paralelo, feito de mentiras e teorias da conspiração. Há uns meses, Mark Adomanis escreveu sobre a sua estranha experiência em Moscovo: mesmo gente instruída e sofisticada lhe repetia teorias que, num país como os EUA, os marcariam como lunáticos. O voo MH17? Obviamente abatido pela Nato. O atentado de 11 de Setembro? Claramente organizado pela maçonaria. A alternativa russa à Wikipedia, encomendada por Putin, será talvez o repositório completo desse mundo alternativo, onde nunca a Rússia interferiu na Ucrânia.
Dir-me-ão: todos mentem, lembre-se da invasão do Iraque. Há diferenças: uma América revista por Putin continuaria até hoje a negar que alguma vez tivesse invadido o Iraque em 2003, ou teria obviamente “encontrado” as armas de destruição maciça. Porque Putin não se limita a omitir ou a manipular. Mente sem limites, como só pode mentir um ditador plebiscitário que há quinze anos controla a administração, a justiça, a economia e a imprensa do seu país, perseguindo a oposição e a crítica. Um presidente americano está sujeito a escrutínio e a contraditório. Putin, não. Por exemplo: a população russa não quer tropas na Ucrânia. Ora, no mundo de Putin, isso não é problema, porque não há tropas russas na Ucrânia.

A Rússia é uma potência decadente, demográfica e economicamente. Isso, porém, pode apenas tornar o regime de Putin ainda mais dependente das audácias externas que lhe dão glória e justificam, em nome da defesa da Rússia, as suas brutalidades domésticas. A Rússia de Putin continuará assim, muito provavelmente, a dar para todos os peditórios anti-ocidentais e a ajudar de todas as maneiras a reverter a vaga de democracia da década de 1980. Para aqueles, do PCP em Portugal à Frente Nacional em França, que nunca se conformaram com o consenso democrático e liberal, Putin é hoje uma figura de culto. Tal como Putin, também eles sabem que a subversão da democracia começa na negação da verdade, na recusa da realidade, na denúncia do mundo como o produto de uma conspiração judaico-capitalista-homossexual-americana. Quando confrontou Vitaly Milonov durante uma reportagem em São Petersburgo, Stephen Fry disse-lhe na cara: “o senhor vive num mundo de fantasia”. Mas esse mundo de fantasia alastra à nossa volta.

Sem comentários: