sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O muro da vergonha

Via Malomil

     Conta Jorge Luis Borges que o homem que ordenou a edificação da Grande Muralha da China, o imperador Shih Huang Ti, foi o mesmo que determinou que fossem queimados todos os livros anteriores a ele. Nesses dois gestos, aparentemente tão distintos, revelava-se, afinal, um mesmo desígnio - fazer parar o tempo. Com a queima dos livros do passado pretendia o imperador nada menos do que a «abolição da História», nas sábias palavras de Borges. Com a construção da infinda muralha, procurava Shih Huang Ti proteger o seu império das acometidas dos bárbaros do Norte, acautelando o futuro daquelas terras. Para que a China, assim defendida tanto do seu passado como do seu futuro, permanecesse imutável por séculos e séculos. «Queimar livros e erigir fortificações é tarefa comum dos príncipes», diz Jorge Luis Borges. Simplesmente, Shi Huang Ti actuou a uma escala tão gigantesca que a muralha que mandou construir é alvo de um mito urbano, segundo o qual ela seria a única obra feita pelo Homem observável a partir do espaço. Novamente, a lição de Borges: «Cercar uma horta ou um jardim é comum; mas não, cercar um império».
         O Muro de Berlim não teve, por certo, a pretensão de cercar um império, pois é duvidoso que o bloco de Leste fosse um «império» (apesar da lição premonitória de Hélène Carrére d'Encausse no seu L'Empire Eclaté); e, mesmo que o fosse, não era propósito do Muro defender um espaço de proporções tão gigantescas como a China imperial. Desde logo, porque a estrutura da obra, circunscrita à antiga capital do Reich, não correspondia à dimensão colossal da linha divisória da «Cortina de Ferro», cuja existência Churchill denunciara ao mundo no seu célebre discurso de Fulton. «Como pode uma muralha proteger, se não é uma estrutura contínua?», perguntou Kafka na narrativa que dedicou à muralha chinesa. O Muro de Berlim não era, nunca esperou ser, a Muralha da China. Esta, aliás, nunca foi derrubada. Permanece firme e visível a partir do espaço, segundo dizem. Em contrapartida, o Muro foi destruído, pedra sobre pedra, numa noite de exaltação e júbilo, há precisamente 25 anos.   
      


Em todo o caso, há um traço comum a todos os muros que se erigem, na China, na Alemanha, no Médio Oriente ou na fronteira do sul dos Estados Unidos. Os muros visam criar uma barreira entre seres humanos. Comungam, no fim de contas, do eterno mas utópico ideal de fazer parar a História, que se desenvolve da acção e na interacção dos homens. Qualquer muro retira aos cidadãos aquilo que lhes é mais essencial: a liberdade de escolher. Sintomaticamente, esse é título do capítulo dedicado à queda do Muro de Berlim na volumosa História da Alemanha de Dennis Bark e David Gress. No caso do Muro, a tentativa de congelar a marcha irreversível do tempo, comprimindo a liberdade de escolha individual, é algo que ficou patente no modo como a RDA procurou que os seus cidadãos ignorassem o que sucedia «do lado de cá». Para que, «do lado de lá», intra muros, a vida decorresse sem sobressaltos. Para que os fiéis do socialismo - que, note-se, não hesitavam em espiar-se uns aos outros - acreditassem como Pangloss que viviam no melhor dos mundos possíveis. Esta é uma realidade que o filme Good Bye, Lenine! captou de forma admirável, narrando a história de uma mulher que alimentava a crença na utopia socialista e para quem a vida parara antes da queda do Muro, pelo que jamais se adaptaria à febril aceleração do tempo que os grandes eventos da História sempre provocam. Por muito que julguemos tratar-se de uma história de ficção, foi algo que, de uma forma ou doutra, afectou muitos alemães de Leste, sobretudo quando descobriram que a utopia que existia a Oeste também não era tão prometedora nem tão radiosa quanto julgavam.

Dos livros, as imagens que temos do Muro são, em larga medida, tributárias das novelas de John Le Carré e das trocas de espiões nas sombrias noites de neblina do Checkpoint Charlie. Agora, até por força da abertura de muitos arquivos, chegou o tempo de o Muro de Berlim se converter em objecto de investigação histórica. Sobre ele têm sido publicados diversos livros, podendo citar-se a obra The Wall. The people's history (2003), de Christopher Hilton (um autor especializado em biografias de campeões da Fórmula 1...). Mas, ao escolher o trabalho de Frederick Taylor, as Edições Tinta-da-China fizeram, como sempre, a melhor opção. É possível encontrar na literatura germânica estudos mais aprofundados, geralmente sobre pontos específicos (a edificação, a queda, o impacto nas relações Leste-Oeste, os efeitos da Ostpolitik). Não é fácil, porém, descobrir uma obra que, apesar da sua apreciável dimensão (o livro tem 581 páginas), consegue conquistar o leitor da primeira à última linha. Para isso contribuiu, por certo, a circunstância de o autor, Frederick Taylor, não ser um historiador profissional ou um académico, mas um argumentista que escreve romances e obras de ficção. O estilo com que este livro está escrito lembra, de facto, o argumento de um filme construído pari passu com o propósito de prender a atenção do espectador. Apesar de sóbria e contida, a prosa desvenda um autor que, sem sacrificar o rigor dos factos, alicerçados numa sólida investigação, pretende acima de tudo despertar a paixão compulsiva de quem o lê. Basta atentar nos títulos de cada capítulo: «Areia», «Sangue», «Arame», «Cimento» e «Dinheiro», a que se segue um posfácio desolador, expressivamente chamado «O Roubo da Esperança». Como basta atentar na primeira frase de um prefácio que, num registo cinematográfico, abre com o apelativo título «Bem-vindo ao Muro»: «Foi num fim-de-semana, em Agosto de 1961». No dia em que Berlim começou a ser cercada no âmbito da «Operação Rosa», um acto surpreendente que a todos apanhou desprevenidos, incluindo os comandantes americanos ou Willy Brandt. O pai de Frederick Taylor teve uma grave crise cardíaca, que o faria morrer um dia depois. Por isso, diz Taylor, sempre associou a edificação do Muro a um sentimento de corte, de perda, de ruptura - e é o ajuste de contas com essa memória traumática que se encontra na génese da sua investigação.  

 
  
         Este livro descreve com rigor e detalhe o percurso de Berlim, começando por tempos remotos, passando pelos alvores da Guerra Fria até aos tempos do bloqueio, quando os americanos organizaram a «Operação Vitualhas» e os britânicos a «Operação Berlinde». Sobre essa «pré-história» do Muro existe, aliás, um livro curioso, The Unheralded. Men and women of the Berlin blockade and airlift (2003) (bibliografia mais actualizada aqui). Como também começam a surgir, a ponto de se converterem numa «moda» historiográfica e editorial, inúmeros livros sobre os sofrimentos infligidos ao povo alemão no pós-2ª Guerra. A título de exemplo, e sem nos pronunciarmos sobre o seu conteúdo, pode citar-se o livro do pouco recomendável James Bacque, Outras Perdas(traduzido entre nós pelas Edições Asa) ou, mais recentemente, After the Reich. The brutal history of the Allied occupation, de Giles Mac Danogh (2007). Para quem quiser ter uma visão aproximada do que sucedeu pode ler o bem conhecido História Natural da Destruição, de Sebald, para o período da guerra, e, para o pós-guerra, os tumultuosos primeiros capítulos do notável 1945. The war that never ended, de Gregor Dallas. Mas não é disso que trata este volume, que, como se disse, começa na «pré-história» do Muro e termina com a sua derrocada. Taylor tem apenas um objecto de estudo, que se converte numa obsessão para o leitor: o Muro de Berlim. Ou apenas «o Muro», pois de tão conhecido não necessita de outros qualificativos.        



         Este livro de Frederick Taylor não traz propriamente novidades sensacionais sobre a história do Muro. O essencial dessa história, aliás, sempre foi conhecido. E, apesar de ter perscrutado meticulosamente os arquivos alemães, norte-americanos ou ingleses, Taylor não teve como objectivo fazer descobertas espectaculares - ou, se teve tal objectivo, não conseguiu alcançá-lo. Do mesmo passo, não enveredou por caminhos interpretativos, nem possuiu a pretensão de nos fornecer uma nova visão historiográfica sobre a edificação do Muro ou a sua queda. Até porque, desse ponto de vista, os factos são de tal forma evidentes, conhecidos e interpelantes que não suportam interpretações especialmente originais ou polémicas, se exceptuarmos o prodígio de imaginação e delírio que o Avante! nos ofereceu há poucos dias. Se o leitor quiser não mais do que uma descrição do essencial da história do Muro bastar-lhe-á consultar uma obra como The Berlin Wall. Division of a City, de Thomas Flemming, que em escassas sete dezenas de páginas contém uma narrativa factualmente correcta, desapaixonada e objectiva do que se passou, acompanhada de fotografias bem ilustrativas - a começar pela reprodução do documento de 12 de Agosto de 1961 através do qual um homem de 49 anos, praticamente desconhecido no Ocidente, determina o início da operação de clausura dos acessos da Porta de Brandenburgo pelas forças da Volkspolizei. Chamava-se Erich Honecker.


         Mas quem quiser conhecer realmente o que se passou terá de ir mais além, mergulhando nos meandros da Guerra Fria. E, nesse aspecto, dificilmente se poderá encontrar melhor meio de atravessar o Muro do que este livro de Frederick Taylor. Desde logo, porque Taylor se atém a factos, não buscando interpretá-los mas tão-só envolvê-los numa narrativa apetecível e cativante. Depois, porque Taylor não pretende fazer qualquer «percurso alternativo» nesta subida ao Muro de Berlim, como acontece, por exemplo, no citado livro de Hilton, que nos procura dar - e, nesse aspecto, de forma plenamente conseguida - uma outra visão dos acontecimentos, a visão dos que sofreram a amargura de conviver com uma realidade que os humilhava, de um lado e doutro do arame, da areia e do cimento. Muitos tentaram a sua sorte. Alguns conseguiram escapar com vida. Outros, não. Mais de 100 morreriam a tentar escapar. Taylor descreve de forma apaixonante as diversas tentativas de fuga que o Muro suscitou, de túneis a balões, entre outros engenhosos meios, ainda que nem sempre eficientes. Para aqueles que não fugiram, não foi fácil conviver com uma fronteira tão brutalmente visível.
         Se as muralhas da China ou de Adriano foram erigida para proteger impérios civilizados dos povos bárbaros do Norte, o Muro de Berlim não foi construído para evitar a invasão dos ocidentais. Foi edificado para evitar a hemorragia dos povos de Leste, ou seja, para proteger os alemães da RDA deles próprios. Os turistas do Ocidente - como aconteceu, de resto, a Frederick Taylor na sua juventude - podiam viajar até Berlim, ainda que com as restrições típicas de um regime totalitário. Entretanto, a Oeste, como bem nota Anne Applebaum na recensão deste livro que publicou no The Washington Post, estudantes radicais mostravam-se insatisfeitos com a opressão da sociedade de consumo capitalista, apesar de todos os habitantes da parte ocidental Berlim terem um estatuto privilegiado, estando isentos do serviço militar e recebendo vultuosos apoios públicos, por forma a garantir que também eles não partissem rumo a outras paragens. De um lado e doutro do Muro, ninguém estava satisfeito. Todos viviam, no fim de contas, naquilo que Taylor designa por «gaiola surrealista». É curioso notar como ambos os regimes, cada um à sua maneira e com as armas de que dispunha, procuraram fixar os seus cidadãos: a Leste, através de soldados e metralhadoras; a Oeste, por meio de subsídios do Estado e regalias sociais.



O Muro de Berlim surgiu de tal forma associado à Guerra Fria e ao regime comunista que a imagem que retemos da sua queda é também a que melhor exprime a derrocada daquele regime. Mas, é preciso dizê-lo, a edificação da muralha de Berlim não foi, ao contrário do que tantas vezes se julga, um gesto dramático que fez entrar o mundo num novo patamar de conflito entre as duas grandes potências. Nesse aspecto, a crise dos mísseis cubanos representou um risco infinitamente superior, até porque, segundo Taylor, homens como Kennedy, Macmillan ou de Gaulle não se opunham frontalmente à existência de duas Alemanhas. Perante os estragos que a Alemanha unida provocara em duas guerras mundiais, o Muro actuou até como elemento estabilizador do equilíbrio mundial - eis o único ponto em que Taylor se aventura por caminhos interpretativos não isentos de suscitar polémica e controvérsia. Mais do que o sintoma de um confronto, o Muro exprimia um acordo tácito de partilha do mundo em esferas de influência. Seja como for, a sua queda tornou-se um dos momentos mais emblemáticos da implosão do comunismo, como se naquelas paredes estivessem inscritos, além de milhares de graffitti, as marcas de uma ideologia que ainda atormenta o nosso tempo.

         Só poderemos compreender a gigantesca explosão de alegria a que assistimos em 1989 se conhecermos a amargura dos que em 1961 viram as suas vidas alteradas de forma tão violenta e radical. Sobretudo, tão repentina. O Muro caiu no mesmo lapso de tempo em que nasceu: um dia. Por muito que todos tenhamos sido berlinenses, parafraseando a famosa proclamação de Kennedy, só um alemão - ou, mais do um alemão, um habitante de Berlim - pode alcançar totalmente o que o Muro significou. A muralha edificada num tranquilo dia de Agosto de 1961 não dividiu dois Estados, não fracturou uma cidade nem sequer separou dois regimes ou sistemas políticos. O Muro apartou famílias, estilhaçou vidas, destruiu trajectórias pessoais, penetrou nos pormenores mais ínfimos do quotidiano de gerações inteiras. Foi símbolo da divisão de uma Alemanha que se cindiu até na forma como recordou os traumas de um passado recente, como podemos concluir da leitura da obra Divided Memory. The nazi past in the two Germanys, de Jeffrey Herf.
         Há quem sustente, numa interpretação original, que foi a divisão das Alemanhas, simbolizada no Muro, que permitiu o espectacular crescimento da RFA, o Wirtschaftswunder e a estabilidade dos tempos de Adenauer. A existência da RDA, entrincheirada por trás do Muro de Berlim, inviabilizara a formação de uma «grande Alemanha» de 80 milhões de pessoas, que a França, marcada por dois conflitos mundiais, jamais aceitaria como parceira num projecto de cooperação à escala europeia. Ao Muro de Berlim dever-se-ia, paradoxalmente, o nascimento da Comunidade Europeia. Para que uns se unissem, outros tinham de permanecer separados. Esta tese, proposta de modo algo impressionista por Paul Johnson no seu livro Modern Times, merece uma discussão que seria descabido travar neste breve apontamento. Felizmente, Frederick Taylor, como já se disse, não propõe «teses», descreve factos. Em todo o caso, a sua visão das coisas não parece andar muito longe da avançada por Paul Johnson. Pelo menos, no sentido em que, para Taylor, o Muro não revelou um confronto, antes selou o pacto da convivência possível nos tempos sombrios da Guerra Fria.
         A encerrar estas linhas, é devida uma palavra de saudação às Edições Tinta-da-China. E não apenas por terem decidido publicar uma obra desta envergadura num país que só agora começa despertar para os ensaios históricos de grande dimensão -trata-se de um gesto de coragem editorial, que se espera encontre eco junto do público leitor. É de saudar o excepcional apuro que sempre caracteriza os livros desta editora. Um grafismo de incomparável qualidade, uma tradução escorreita, uma revisão cuidada, capaz de espantar as mais tenazes gralhas, uma atenção a elementos tão importantes como o índice onomástico são alguns dos muitos méritos que converteram a Tinta-da-China num caso singular no panorama editorial português.
        
         Frederick Taylor, O Muro de Berlim. 13 de Agosto de 1961-9 de Novembro de 1989, Lisboa, Edições Tinta-da-China, 2007, 581pp.
         [texto originalmente publicado em 2008 na revista RI – Relações Internacionais, e disponível aqui]



Texto e fotografias de António Araújo

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