sábado, 22 de novembro de 2014

Rússia testa vontade da NATO de se reinventar

Paulo Rangel 

Vários líderes europeus, com destaque para Angela Merkel, têm mantido uma posição de força, mas alguns analistas questionam a determinação da Aliança Atlântica para enfrentar Moscovo.
1. Os ventos que correm Europa e Mundo afora são ventos de guerra. De guerra na Líbia, de guerra na Síria, de guerra no Iraque, de guerra nas fronteiras da Ucrânia.
E as brisas que atravessam o Mundo e a Europa são brisas de vésperas, de vésperas de guerras. O Egipto ferve e fervilha e o Magrebe já sente a febre do Estado Islâmico. Os aviões russos desejam com ardência ser acompanhados; os navios russos ufanam-se em ser escoltados; os submarinos russos orgulham-se em não serem identificados. A China desafia o Japão e o Japão desafia a China. O Irão aguarda pacientemente um momentum libertador vindo das actuais negociações internacionais; a Coreia do Norte insiste na sua vocação provocadora. Os Estados Unidos todos os dias fazem nova prédica, nova prédica dura e moral. Mas quanto mais pregam, mais longe parecem de qualquer vontade de intervir, mais próximos aparecem da sua secular reticência. Obama, vindo do Hawai, promete o Pacífico, promessa que obviamente não pacifica a Europa.
2. A Europa vive as angústias da crise e as inquietudes do enorme desgosto democrático dos cidadãos. O UKIP, mais xenófobo do que eurocéptico, progride a olhos vistos. Marine Le Pen, com a sua demagogia sedutora da desilusão, arrisca-se a ganhar eleições. A Suíça e a Noruega – outrora paraísos democráticos – convivem diariamente com a direita radical no poder. Na Itália, os cépticos e os cínicos crescem a toda a hora e ninguém faz baixar a onda populista e popular de Beppe Grillo. Na Hungria, na Holanda, na Grécia, na Suécia e na Finlândia, a direita extrema vai ganhando espaço e visibilidade. A suspeita de que a Rússia, de um modo ou de outro, apoia e financia os movimentos de extrema-direita em todos estes países aguça e estimula o aguilhão da insídia e da cizânia nas chancelarias e nos quartéis-generais. A Grécia soma ao radicalismo de direita a virtual vitória eleitoral da extrema-esquerda do Syriza e do seu projecto de dissolução anárquica da democracia liberal tal como a conhecemos. A Polónia – agora elevada ao estatuto de quase potência – e os países bálticos, temendo genuinamente o delírio imperial de Putin, pressionam a tal ponto a política externa europeia que esta acaba por fornecer a Moscovo os pretextos pelos quais Moscovo anseia e aspira. Os sinais de desagregação política em países pobres como a Roménia e a Bulgária são tudo menos discretos. As volições soberanistas da Catalunha, do País Basco, da Escócia, da Flandres e da Padânia complicam finalmente o debate do lado ocidental.
A crise das dívidas soberanas e a lentidão da sua superação encarregam-se da parte restante. A ameaça de deflação – que parece agora ser encarada com mais seriedade do que nunca – lança o espectro de fazer da Europa um novo e grande Japão. A polémica à volta da competitividade fiscal dos Estados-membros e da agressividade fiscal do Luxemburgo, outrora governado pelo novo Presidente da Comissão, também não ajudam. A ideia de que pode haver uma cesura entre Estados ricos e Estados pobres, entre Estados grandes e Estados médios e pequenos, entre Estados do Norte e Estados do sul, entre Estados atlânticos e Estados centrais e de leste continua a fazer o seu caminho.
3. A crise catalã é talvez o detonador mais visível da incerteza na Península, mas não é decerto o único. O vulcão dos escândalos políticos em Espanha não cessa de entrar em actividade: seja do lado do PP, com o caso Barcenas, seja do lado do PSOE, com a conexão andaluza, seja mesmo do lado institucional da monarquia, com o caso Nos. A formalização política do movimento dos indignados, de algum modo hipostasiada na ascensão do Podemos e do seu profeta Pablo Iglesias, não vem a ser menos preocupante. Com a sua confessa simpatia pelo “socialismo bolivariano” da Venezuela, do Equador e da Bolívia, está tudo dito quanto às suas credenciais democráticas. Com as suas promessas de distribuição omnímoda de prestações sociais, sem qualquer explicação sobre o respectivo financiamento, está tudo dito quanto ao lugar geométrico da sua demagogia. O Podemos, enquanto movimento de dissolução dos pilares da democracia liberal, não é menos pernicioso nem menos perigoso que muitos daqueles movimentos de direita radical. A Espanha vive um momento constitucional, político e partidário delicadíssimo, que, de uma maneira ou de outra terá sempre consequências sobre Portugal.
A incerteza global, a incerteza europeia e a incerteza espanhola são hoje o meio ambiente da incerteza lusa.
4. Miguel Macedo. Gostava de deixar aqui uma palavra a e sobre Miguel Macedo – para lá do “sim”, que aqui costumo registar e que hoje vai também registado a seu favor. Admiro de há muito o seu convicto sentido de Estado e de dignidade institucional, o seu conhecimento profundo da vida política e das suas vicissitudes, o seu respeito pela cultura institucional das administrações públicas. E, por isso, devo confessar que o seu gesto, tomado logo num primeiro momento, em nada me surpreendeu. Surpreender-me-ia, sim, um qualquer gesto diverso. É fundamental, designadamente, no quadro europeu que defendamos a todo custo – e independentemente de qualquer juízo precipitado ou injusto de culpabilidade sobre este ou aquele alto dirigente administrativo – a nossa polícia de fronteiras, o seu prestígio e a sua integridade. Numa altura em que Schengen, pelas boas e pelas más razões, está no epicentro da política europeia, não podem restar dúvidas sobre a honorabilidade e a competência da polícia portuguesa. Foram os valores éticos e democráticos de mais alto timbre, mas também este concreto interesse nacional vital, que o gesto de Miguel Macedo soube proteger.
SIM. Miguel Macedo. O Ministro da Administração Interna mostrou a dimensão política, ética e humana que muitos lhe reconheciam. Os bons exemplos são sempre benvindos.
NÃO. Escândalo dos vistos Gold. A vida política de um Estado depende em muito da qualidade, do espírito de serviço e da credibilidade da alta administração pública. Eis um plano em que se passam a levantar dúvidas legítimas.




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