domingo, 14 de dezembro de 2014

O caminho da Albânia para a UE fez-se a destruir cannabis


Imagine uma vila com cerca de 6000 habitantes, no Sul do país, mais ou menos da dimensão de Monchique, que se tivesse tornado um enclave produtor e exportador de cannabis, protegido por homens armados com metralhadoras e baterias antitanque, onde a polícia não conseguisse entrar durante 15 anos. Lazarat, na Albânia, era assim. O facto de o Governo albanês se ter decidido a montar uma enorme operação policial, com apoio das autoridades italianas, para pôr fim ao desafio que Lazarat representava valeu a atribuição à Albânia, poucos dias depois, do estatuto de país-candidato à adesão à União Europeia.
“Tivemos uma reunião com embaixadores da União Europeia e, mesmo sabendo que ainda não havia uma alternativa de desenvolvimento para a região, considerou-se que não era adequado permitir que se continuasse a cultivar quantidades tão grandes de cannabis. Era um total falhanço institucional”, explicou o ministro do Interior, Saimir Tahiri, a um grupo de jornalistas europeus convidados pela União Europeia a visitar a Albânia, no qual se inclui o PÚBLICO.
Com o apoio de Itália – já que este país é o principal destinatário da cannabisalbanesa –, a ofensiva contra Lazarat começou em meados de Junho e durou uma semana. Itália fotografou os campos de cultivo a partir do ar e 800 polícias avançaram sobre a vila a cerca de 240 km a sul de Tirana, a capital albanesa, com a missão de assumir o controlo, queimar as plantações e apreender droga. Itália ou Grécia são os destinos imediatos da cannabis, por mar ou por terra, e o volume das apreensões pode chegar às mil toneladas.
Depois desta acção, diz o ministro do Governo socialista que saiu das eleições de Junho de 2013, a Albânia saiu da lista dos países de origem do tráfico de narcóticos. “Entre Janeiro e Setembro, foi destruída mais cannabis do que nos últimos seis anos”, afirma Tahiri, exibindo os números coligidos pelo seu ministério: 530.177 plantas foram destruídas em 2014, e 503.626 de 2008 a 2013. Em Lazarat e noutras operações durante este ano foram destruídos 2214 campos de cannabis e apreendida marijuana com um valor comercial de 7000 milhões de euros.
A pouca eficácia dos sucessivos governos albaneses contra locais como Lazarat era um dos obstáculos no caminho deste pequeno país dos Balcãs que em 2009 pediu a adesão à União Europeia. Mas esta acção pareceu convencer Bruxelas: no fim de Junho, Tirana recebeu o desejado estatuto de país candidato à adesão.
Isto não quer dizer que a bandeira da UE terá em breve uma nova estrelinha. Pelo menos durante a próxima década, é pouco provável que a União Europeia se abra a novos membros, segundo as orientações traçadas pelo novo presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker.

Pró-ocidentais
Mas isso dá tempo para que países como a Albânia se preparem – e apesar de haver muito entusiasmo da população pela Europa, com a adesão a ser apoiada por 86% dos albaneses, há muito trabalho a fazer.
Este país montanhoso e virado para o Mediterrâneo, com várias cidades Património da Humanidade e cerca de três milhões de habitantes, viveu desde o fim da II Guerra Mundial e até 1992 sob a ditadura comunista mais disfuncional que se poderia imaginar, num regime de mão de ferro imposto por Enver Hoxha. Mas nunca perdeu de vista o Ocidente.
“Somos muito pró-ocidentais, é a mesma coisa com o apoio à NATO”, diz Edith Harxhi, do centro de estudos liberal Albanian Policy Center. “Todos os partidos apoiam a adesão à UE, só que o diálogo político não existe – a oposição está a boicotar ao Parlamento, por exemplo”, explica.
A União Europeia deu à Albânia cinco trabalhos de Hércules, para poder vir a entrar para o clube: reforma da administração pública, reforma do sistema judicial, direitos humanos, luta contra a corrupção e luta contra o crime organizado. Todos necessitam do envolvimento da sociedade civil e do diálogo entre os partidos, pois implicam grandes mudanças na sociedade.
O grande tema por estes dias é a reforma judicial, que implica também mudanças na Constituição. “Vai ser a reforma mais difícil dos últimos 25 anos”, porque é preciso envolver a sociedade civil, sublinha Edith Harxhi. “É preciso não esquecer que os albaneses funcionam num espaço mental algo diferente do resto da Europa; afinal, até 1988 nem sequer existia um Ministério da Justiça”, sublinha.
Há muitos problemas na justiça albanesa que criam um ambiente favorável à corrupção e ao crime organizado que massacram o país, e lhe dão a pouco honrosa 110.ª posição na lista de 175 países do índice de percepção da corrupção da organização Transparência Internacional. Aliás, são precisamente os juízes e advogados que os albaneses consideram os mais corruptos – 81% têm essa opinião, segundo o Barómetro Global da Corrupção de 2013. Quanto aos políticos, têm a desconfiança de 70% dos albaneses. “A reforma judicial não pode servir a elite, tem de ser útil ao povo, para que as pessoas normais possam ter acesso à justiça”, comentou Andi Dobrushi, da Open Society Foundation (do milionário e filantropo George Soros).
O ministro do Interior também fala na reforma da própria polícia. “Fizemos um inquérito e percebemos que a polícia é vista como repressiva de todos, não só de quem viola a lei. Mas a polícia não serve só para lutar contra o crime, também é para garantir a segurança”, diz Samir Tahiri, que se empenhou também em fazer passar no Parlamento um novo quadro legal, modernizado e mais adequado às exigências da UE.
Mas a sua missão é criar uma nova polícia, mais eficaz. “Temos a polícia mais pobre da Europa, com a mais baixa taxa de educação dos agentes, a mais reduzida taxa de oficiais, sem infra-estruturas, com equipamento deteriorado”, afirmou o ministro. Por isso, está a contratar: criou unidades especiais de luta contra a corrupção e o cibercrime, e também contra o terrorismo. “Quando os criminosos são tão ricos, e cooperam mais facilmente do que os bandidos, e têm o poder de corromper, bem precisamos de ajuda.”

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