segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Petrodólares

19/12/2014 | 00:01 | Dinheiro Vivo


As últimas décadas foram dominadas pela preocupação acerca do fim iminente das fontes de combustíveis, e do aumento imparável do preço do petróleo e da energia.
Por sua vez, durante a crise europeia descobrimos os milionários da OPEP e a aplicação das suas vastas fortunas nos principais setores da nossa economia. Por fim, no último ano receámos a afirmação imperialista da Rússia, apoiada na dependência energética que a Europa Central tem das fontes de abastecimento russas. Mas, de repente, nos últimos meses o preço do petróleo entrou em queda livre. Todas estas constantes do nosso mundo podem em breve estar em causa.
Porque é que o preço do petróleo caiu? Em grande parte, exatamente devido aos incentivos criados pelos medos no parágrafo anterior. O receio do fim do petróleo levou-nos a dedicar investigação, atenção e recursos à investigação de fontes alternativas de energia. Na Europa temos assistido ao aumento das energias renováveis, nas Américas à subida do etanol. Mas a grande mudança dos últimos anos foi a implementação de novas tecnologias na exploração de petróleo de xisto, sobretudo nos EUA. O crescimento da exploração do xisto foi tal que os EUA já são hoje o maior produtor de petróleo do mundo, e pela primeira vez em quase 20 anos produzem mais do que aquilo que importam.
Por sua vez, os países da OPEP não conseguiram impedir a baixa do preço do crude. Alguns dependem das suas receitas para manter os consumos e investimentos na Europa, pelo que não estão dispostos a cortar na produção para puxar o preço para cima como no passado.
Outros perceberam que a queda do preço é a única forma de combater o petróleo de xisto, que é mais caro de extrair do que o crude. A ser assim, a ameaça do xisto implica que os preços mais baixos do petróleo serão permanentes.
Por sua vez, um dos maiores produtores de petróleo do mundo, a Venezuela, está hoje na situação de depender das vendas de petróleo a qualquer preço para poder sequer pagar a gasolina que tem de importar do exterior. O chavismo, tanto admirado pela extrema esquerda do nosso país, arruinou o país ao ponto de não ter hoje sequer a capacidade tecnológica ou financeira para refinar o seu próprio petróleo.
Da Arábia à América do Sul passando por África, o resultado é que o músculo que sustem todas estas economias está-se a revelar muito mais fraco do que elas supunham.
Por fim, porque o império de Putin se alimenta das receitas de petróleo, a economia russa entrou em queda livre. Não são precisos mais rublos para comprar petróleo russo, e deixam de haver recursos em Moscovo para comprar todos os bens ocidentais de que a sua economia precisa.
Mais relevante para o nosso país, vamos ver o que acontecerá em Angola nos próximos meses. A sua economia depende muito mais do petróleo do que a economia russa e o kwanza não inspira muita confiança. A era do capital angolano em Portugal pode estar no seu apogeu, prestes a entrar em queda livre. Quem irá tomar o seu lugar?

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