domingo, 26 de abril de 2015

Dá que pensar

Em tempos desdenhámos dos países do Leste europeu, que haviam recentemente fugido ao jugo do totalitarismo soviético mas continuavam a contar com uma mão-de-obra semi-escravizada.
Depois, as nossas fábricas começaram a fugir para lá da ex-cortina de ferro, e o desdém foi desmaiando. Hoje, os salários dos trabalhadores do Leste já ombreiam com os nossos.
A comparação com os outros países ocidentais tampouco nos é favorável: enquanto as outras nações europeias foram continuando o seu processo evolutivo, Portugal ficou à beira da estrada durante a última década, a vê-los passar.
O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, parece pensar que Portugal deveria, à semelhança dos russos pós-perestroika, competir no mercado global por via da mão-de-obra barata. É o que se deduz das suas declarações públicas do passado dia 9, segundo as quais o nosso País deveria reduzir ainda mais o custo do trabalho para as empresas. Mas somos mesmo assim tão caros?

Trabalho em saldos
Segundo o Eurostat, em 2004 os custos da mão-de-obra na Polónia, ainda em fase de transição para uma economia de mercado, eram de 4,8 euros em média. Na República Checa, eram de 5,8 e na Eslováquia 4,1. Em comparação, cada hora de trabalho médio de um português custava 11,3 euros – uma diferença significativa.
Contudo, se compararmos Portugal com os nossos parceiros europeus mais ricos, o resultado começa a ganhar mais foco. O trabalho de um norueguês custa cinco vezes mais do que o de um português (54 euros), e o de um holandês “apenas” três vezes mais (34 euros), bem como de um belga, que custa 4 vezes mais (39,1 euros), ou de um dinamarquês (40,3 euros).
Entre os países europeus, Portugal já tem dos custos de trabalho mais baixos, estando nós bastante abaixo da média europeia de 24,6 euros, e especialmente da média europeia dos paises há mais tempo na União, que é de 29 euros.
Ou seja: afinal, os custos elevados da mão-de-obra são um pequeno mito. Mas a opinião pública portuguesa, como sempre inexplicavelmente adepta do “social-derrotismo”, parece aceitar calmamente esta ideia.
Eles avançam, nós ficamos
Enquanto que por terras lusitanas se sonhava com “amanhãs socialistas” nos anos de Guterres e de Sócrates, os polacos e os checos estavam a trabalhar. Ao mesmo tempo em que Portugal pouco ou nada produzia, as fábricas de Leste expeliam porta fora milhões de escudos, e depois euros, de produtos. Alguns certamente de baixa qualidade, com custos de mão-de-obra baixos, mas muitos outros de elevada exigência técnica e qualidade de fabrico, como os automóveis da marca “Skoda” (Portugal é o único país da União Europeia Ocidental sem uma marca automóvel própria), bem como lentes de elevada qualidade que hoje equipam máquinas fotográficas e telemóveis de todo o mundo, e maquinaria pesada.
Adicionalmente, enquanto Portugal ignorava a sua agricultura, os habitantes de Leste desenvolveram-na, usando habilmente os mesmos subsídios e fundos europeus que nós esbanjámos, e os seus produtos agrícolas entraram pelas nossas fronteiras adentro.
O resultado está à vista: nós estagnamos, eles evoluíram a todo o vapor.

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