segunda-feira, 20 de abril de 2015

Quantos mais terão de morrer no Mediterrâneo?

A24: Uma opinião politicamente correcta sobre as mortes no Mediterrâneo

Alexandre Cristo


O que separa os fortes dos fracos é fazer as coisas acontecer. E a Europa não está a fazê-lo. Talvez um dia perceba que é por estas e por outras que abdicou da sua relevância internacional.

Na semana passada, afundou-se uma embarcação de migrantes, 24 horas após a sua partida da costa da Líbia, estimando-se 400 mortes. Foi mais um caso, numa longa série de naufrágios no mar Mediterrâneo, convertido em cemitério de gente que fracassou na fuga à má sorte de uma vida sem condições ou dignidade. Mas foi também uma desgraça maior do que a de Lampedusa, em 2013, quando morreram 360. À época, gerou-se um intenso debate e generalizou-se a convicção de que se impunha uma resposta europeia. Desta vez, foi uma notícia como outra qualquer, daquelas que narram desastres longínquos. Só agora, com a informação de um outro naufrágio que consumiu 700 vidas, talvez mais, o assunto penetrou definitivamente na agenda. A rotina do horror tornou-nos indiferentes?
Os discursos dizem que não. Ontem, o Papa Francisco e líderes europeus assinalaram a urgência do drama, comprometeram-se com medidas rápidas e propuseram uma reunião de emergência. Mas, infelizmente, as acções sugerem que sim, que essa indiferença ganhou raízes na política europeia. Em 2013, após Lampedusa, surgiu o programa Mare Nostrum, com a missão de patrulhar as águas e salvar vidas. Hoje, esse programa foi descontinuado e arrumado nos arquivos. Durou pouco, não pelos resultados mas porque custava muito dinheiro – cerca de 9 milhões de euros/ mês. No seu lugar, emergiu uma versão low-cost, com proporcional redução do perímetro de acção, mais próximo da costa italiana e mais longe dos pontos críticos de naufrágio. Isto enquanto se observa um aumento dos fluxos migratórios de gente desesperada por escapar de uma Líbia desfeita e tornada viveiro de todo o tipo de tráfico e terrorismo. Tudo somado, as consequências estão à vista: morreram este ano mais de mil pessoas a atravessar o Mediterrâneo, vinte vezes mais do que em igual período do ano passado (47). Podemos até questionar a fiabilidade dos números – muitos terão morrido no anonimato, longe de tudo e todos e destas estatísticas. Não podemos é fingir que a Europa está a conseguir lidar com a situação.
Haverá muitas razões que justifiquem essa incapacidade, até porque este é um tema complexo e sem resolução simples. Mas reconhecer essa complexidade não é o mesmo do que aceitar o ser difícil como legitimação para a inacção política (ou para a tradicional opção europeia de empurrar os problemas com a barriga). Neste caso, a raiz do impasse é também outra: a Europa vive paralisada pela crise, pela necessidade da gestão delicada dos vários orçamentos nacionais e pelo receio da afirmação de partidos populistas de direita anti-imigração. É difícil imaginar um cenário pior para se lidar com migrantes náufragos: ninguém quer acarretar com custos financeiros e ninguém quer assumir os custos políticos de acolher imigrantes numa Europa onde a imigração é, lamentavelmente, cada vez mais o tema sensível em que se evita tocar. É uma tempestade perfeita. Mas é uma intempérie que a Europa tem de atravessar. Afinal, não estão apenas milhares de vidas em risco, mas também a credibilidade europeia no contexto da ordem internacional: o que vale a Europa se a defesa dos seus valores nunca saltar dos discursos para a realidade?
É esse o desafio que está na mesa a ganhar pó: através da acção política, reconhecer que a tragédia diária que nos chega pelo mar é um problema moral e político dos europeus, não apenas uma maçada logística que, por coincidência geográfica, acontece às portas da Europa. E é este o embaraço a que se assiste. A Europa reconhece a gravidade da situação, sabe o que deve e o que tem de ser feito mas, entre o medo dos populismos e a falta de força, só o fará quando não tiver alternativas. Quando se sentir obrigada a admitir que esta é mesmo uma questão europeia, que testa a capacidade dos Estados-membros da UE para implementar aquilo que apregoam – a defesa incondicional dos direitos humanos e da dignidade humana. Até lá, recorre-se à técnica do penso-rápido – não resolve, mas ajuda. E isso, obviamente, não chega.

Falar é fácil, dar lições de moral também, mas o que separa os fortes dos fracos é fazer as coisas acontecer. E a Europa, amarrada pela crise e pelos populismos anti-imigração, não está a fazê-lo. Talvez um dia os europeus percebam que é por estas e por outras incapacidades que abdicaram da sua relevância (política e moral) na ordem internacional. Agora, enquanto se espera que a Europa reúna e decida se tem ou não a coragem para fazer a diferença, resta cruzar os dedos e ir fazendo as contas: quantos mais terão de morrer no Mediterrâneo até que a Europa assuma as suas responsabilidades?

A-24: E uma resposta à altura.


Carlos Martins - Nas costas da Líbia os islâmicos executam diáriamente cristãos. Alinham-nos na praia, cortam-lhes as cabeças e fazem o sangue correr para o Mar Mediterrâneo. Se alguém se deu ao trabalho de analizar os vídeos, pode vêr como as praias ficam vermelhas de sangue, numa encenação que pouco tem de ficcional. Dizem os assassinos islâmicos: «Vamos inundar o Mediterrâneo de sangue até chegar ao Vaticano e aos infiéis europeus». Esta gente, é bom não esquecer, são os vencedores das «primaveras árabes» que a Inglaterra, a França e os EUA apoiaram fortemente, permitindo que chegassem ao poder, do Estreio até à Síria. O lancamento de barcos com «emigrantes» contra a Europa é uma das faces da mesma Guerra. Conseguem fazer, com isso, da Europa a culpada, e estão a consegui-lo!..

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