sexta-feira, 24 de abril de 2015

Taxas de juro negativas? Não no mundo real.

Via Instituto Ludwig von Mises Portugal 

Temos assistido recentemente ao espetáculo de taxas de juro negativas, tema que já foi abordado neste site – ver (1) e (2) – O cidadão comum interroga-se como é isto possível e, como é usual, aparece sempre um economista a “racionalizar” as mais fantásticas aberrações produzidas por uma ordem económica profundamente marcada pelas políticas do Estado e dos Bancos Centrais. Da minha parte, quando quero ver um economista a defender tudo o que é contra o senso comum (já nem digo bom senso), a troçar dos princípios sólidos da teoria económica e a fazer pouco daquilo que todo o cidadão de bem toma como certo – como que só se deve gastar dentro das possibilidades de cada um; que a poupança é uma segurança para o futuro e uma fonte de rendimento; que não devemos ser obrigados a pagar pelos erros e caprichos de pessoas que usam o nosso dinheiro como se fosse deles, já sei onde ir – ao venerável Paul Krugman. Foi o que fiz desta vez. Sendo óbvio que a taxa de juro nunca pode ser negativa, mas também sendo certo que quanto mais baixa ela for, mais se estimula o endividamento de particulares e Estado e a criação de uma bolha inflacionista nos mercados bolsistas, como estamos agora a assistir pela enésima vez desde que os bancos centrais começaram a inventar dinheiro a partir do nada, é obrigatório que aí esteja o Herr Krugman a dizer que é normal (ver) e que ainda devia ser “pior” – “melhor”, para ele.


Porque é que a taxa de juro nunca pode ser negativa?Apresento o seguinte silogismo: a) A taxa de juro é o preço de um empréstimo; b) Não existem preços negativos; logo c) A taxa de juro nunca pode ser negativa.A premissa b) acima é auto-evidente e absolutamente necessária para a existência, sequer, de uma teoria económica. A sua violação equivale a dizer-se que é possível vender um kg de maçãs por -1€; isto é, o vendedor entrega as maçãs ao cliente e ainda lhe dá um euro. É óbvio que se eu observasse tal ação numa frutaria não iria depreender daí que as maçãs foram vendidas ao preço de -1€. O que realmente aconteceu foi que o vendedor ofereceu ”as maçãs” a uma pessoa e ainda lhe deu 1 euro – provavelmente era seu sobrinho. Ou então, por qualquer motivo, o vendedor pagou 1 euro para que alguém lhe guardasse as maçãs. Mas, se a taxa de juro não pode ser negativa, como é que é o caso de realmente estarmos a observar taxa negativas nos títulos de empréstimo estatais (yields das obrigações do tesouro) e no mercado de empréstimos interbancários (Euribor)?O mecanismo é basicamente este: Os bancos comerciais são obrigados a deter as suas reservas (dinheiro criado pelo central) na forma de depósitos no banco central (BC). Assim, tal como o José tem uma conta à ordem no Banco X, também o Banco X tem uma conta à ordem no BC da sua área monetária (neste caso a zona euro). Estas reservas são remuneradas pelo BC a uma dada taxa de juro. Ora, o que aconteceu recentemente foi que o BC decidiu remunerar estas reservas com taxas negativas. Isto equivale a que os bancos comerciais estejam efetivamente a perder dinheiro por terem as reservas depositadas no BC. Agora repare-se, se o Banco X disser ao José que vai começar a remunerar o seu depósito a uma taxa negativa, o José simplesmente retira o dinheiro do banco e guarda-o em casa. Se o José não fizer isto, então o que ele está a pagar ao banco, na forma do suposto juro negativo, não é realmente uma taxa de juro mas um custo de armazenamento, por achar que é mais cómodo e/ou seguro manter o dinheiro no banco em vez de debaixo do colchão. Só que os bancos, ao contrário do José, não podem tirar as suas reservas do BC. Ora, esta remuneração negativa é tudo menos uma taxa de juro. A taxa de juro é o preço de um empréstimo voluntário. As reservas estacionadas nos BCs não são nem um empréstimo nem voluntárias – são um montante cativado pelos BCs.Ora, os bancos têm que arranjar uma forma de contornar esta situação. A única forma possível é reduzir as reservas. Como é que eles reduzem as reservas?1 O BC contabiliza o grau excessivo de reservas tendo em conta a percentagem que estas representam nos empréstimos bancários e no capital próprio dos bancos. Assim, se os bancos aumentarem os empréstimos, a sua percentagem de reservas diminui automaticamente Emprestando dinheiro. Assim, é mais lucrativo para um banco emprestar dinheiro a uma taxa de juro de -0,1%, do que estar a perder -0,25% nas reservas que tem no BC. É basicamente esta a explicação para as taxas de juro negativas, que não são um fenómeno de livre mercado, mas uma aberração imposta por uma autoridade central.


Mas e então a fórmula de Fisher que aprendemos na faculdade, não diz que as taxas de juro podem ser negativas?Não, não diz. O que a fórmula de Fisher diz é que na taxa de juro de um empréstimo existe um chamado “prémio de inflação”. Isto é, se eu emprestei € 100 a 1 de janeiro para ser reembolsado a 31 de Dezembro a uma taxa de juro de 5%, e nesse ano a inflação tiver sido de 2%, a taxa de juro “real” foi apenas de 3% e não de 5%, pois dos 5 euros de juro que recebi, 2 foram comidos pela inflação – por outra palavras, 5 euros valem tanto a 31 de dezembro como 3 valiam a 1 de janeiro. Assim, se o emprestador estimar que no prazo de um ano a inflação vai ser de 2%, ele sabe que para tirar uma taxa real de 3% tem que conseguir emprestar a 5%. Se o consegue ou não é outra coisa. No caso atual, em que os BCs fornecem os bancos comerciais com toda a liquidez que estes necessitam, o que acontece é  que qualquer pessoa que tenha umas poupanças que pretende investir com o mínimo risco num depósito a prazo tenha que se contentar com uma taxa de juro perto de zero. Por sua vez isto é bom para as bolsas já que as pessoas têm mais tendência em investir em títulos de risco com o intuito de apurarem uma rendibilidade decente. É claro que quando, mais uma vez a bolha estourar, os BCs não têm nada a ver com isso e o Zé Povinho é que fica a arder.Só para terminar, em relação ainda à fórmula de Fisher, um “prémio negativo de inflação”, isto é, uma taxa de deflação, nunca torna as taxas nominais negativas. Por maior que seja a deflação eu nunca empresto 100 para receber 90. Quando isto acontece, quer com inflação quer com deflação, o que na verdade se está a pagar é um custo de armazenamento ou um serviço prestado pelo banco (como a possibilidade de pagamentos interbancários). As fórmulas matemáticas em economia têm que ser interpretadas realisticamente e não podem ser lidas à letra.
Referências   [ + ]
1. O BC contabiliza o grau excessivo de reservas tendo em conta a percentagem que estas representam nos empréstimos bancários e no capital próprio dos bancos. Assim, se os bancos aumentarem os empréstimos, a sua percentagem de reservas diminui automaticamente

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