sexta-feira, 1 de maio de 2015

Dia particularmente problemático para as cabecinhas da esquerda

Maria João Marques

Algumas vezes ocorre-me ser assaltada pela desconfiança de que ser de esquerda implica alguma deficiência cognitiva (ou, em alternativa, hipocrisia grossa). É que se acho normal – e, gostando eu de diversidade e de ter pessoas inteligentes de quem discordar, muito aprazível – que haja quem defenda o estado como central na economia, na sociedade, na cultura e, até, na vida corrente das pessoas (há uns sinceros com a ideia paternalista de que há muitos adultos à solta que não sabem resolver a sua vida e que o estado tem de lhes ensinar, e há outros que gostam da ideia de desta forma ter poder sobre os outros), já a defesa de certas causas como ‘de esquerda’ só nos pode fazer concluir pelo que pus na primeira frase.

A indignação com a abertura dos supermercados no 1 de maio, além de raiar a loucura, raia a idiotia. Não teria nada contra o 1º de maio ser o feriado por excelência daqueles que apenas se sustentam através do seu trabalho (ao invés dos que detêm também capital e que são simultaneamente trabalhadores e investidores) e que, como no dia de ano novo e o dia de Natal, tudo, exceto os serviços que não podem parar, encerrasse. Mas o 1 de maio não é nada disso e, dos tempos em que já tenho idade para ter memória, nunca foi. Os cafés e restaurantes sempre estiveram abertos. Os centros comerciais sempre funcionaram. Sempre houve feiras aqui e ali para aproveitar o feriado. Os cinemas e espetáculos sempre continuaram sem interrupção. Os museus sempre receberam visitantes. Por todo o lado, menos nos supermercados, se encarou o 1 de maio como um feriado igual aos outros. 

Que se veja como um ignomioso, brutal, iníquo (e mais quinze adjetivos pejorativos) ataque aos trabalhadores uma (ou duas) cadeias de supermercados abrirem no 1 de maio só mostra como agora as causa da esquerda (pelo menos da esquerda histérica) são pequenas e não têm nada a ver com justiça nem com proteção dos trabalhadores. Fazem lembrar os conservadores religiosos para quem foi uma punhalada bem colocada entre as costelas que os hipermercados abrissem ao domingo à tarde. Quem trabalha neste dia nos supermercados é compensado por isso em mais do que determina a lei, trabalha porque quis e os outros trabalhadores de outras empresas, sobretudo os que ganham menos, têm possibilidade de comprar bens essenciais mais baratos. E para as almas sensíveis a quem repugna ver pessoas de menores rendimentos a acorrerem a um supermercado só para aproveitar uma promoção, e lá dentro sobreviver aos encontrões e às longas filas, do not worry. As senhoras do extremo oposto da pirâmide social fazem as mesmas figuras com os sample sales e os stock off de marcas de luxo. As más figuras por causa de promoções são, afinal, um unificador social.

Sem comentários: