quarta-feira, 6 de maio de 2015

Os "fura-greve"

Paulo Baldaia

Esta greve dos pilotos da TAP é egoísta, desproporcional, irresponsável e mais alguma coisa, mas é um direito que lhes assiste. As greves são, aliás, muitas vezes, egoístas e... inconsequentes. O que há de novo nesta greve é o coro de críticas aos pilotos que fazem greve e o elogio aos pilotos que resolveram trabalhar, não aderindo à greve.

Nesta matéria, a noção de democracia na cabeça dos grandes democratas sempre foi muito limitada. A simples existência do termo "fura-greve" e a criação dos piquetes de greve procuram fazer que uma greve decretada por um sindicato passe a ser uma obrigação e não um direito. Por tudo isto, custa ouvir este coro reconhecer, finalmente, que o direito à greve equivale ao direito a trabalhar. O problema é que nada do que admitem, e muito bem, hoje, servirá para o que nos vão dizer amanhã.

Daniel Oliveira escreveu nesta semana, no Expresso Diário, "um apelo aos pilotos" em que parece andar em contramão na auto-estrada, assumindo que nunca furou uma greve e o quanto lhe custa criticar "esta greve [que] nega a própria razão de ser da greve". Daniel escreve sempre bem, revela um pensamento político claro e nunca deixa de ser coerente. É por isto que o exercício deste político/comentador, que acredita que a razão de ser da greve é a "capacidade de os trabalhadores se defenderem de forma solidária", tem muito significado. Se Daniel Oliveira admite que desta vez a razão não assiste a esta greve, tem de admitir que, muitas vezes, muitos trabalhadores possam pensar exactamente o mesmo em relação a outras greves. E não passam por isso a ser reaccionários, mas sim pessoas livres que optam por trabalhar por entenderem que dessa forma defendem melhor a sua posição, a dos outros trabalhadores e da empresa.
Verdadeiramente insólitas são a posição e a explicação do líder da UGT, Carlos Silva, para quem esta greve "é mais um passo para o abismo e a destruição da empresa". Carlos Silva diz que a razão da greve é corporativa e que a UGT a apoiaria se fosse contra a privatização. Pressupõe-se que as greves contra as privatizações não dão passos "para o abismo e a destruição das empresas". Um exemplo de coerência analítica. Pelo menos a CGTP não entrou no coro, porque para esta central sindical os fins sempre justificaram os meios. Malandro é quem trabalha, em dia de greve.
Já pedi para me descontarem o dia de salário e me contarem como grevista, estando de férias. Já fiz greve (perdi dia de salário) e fui trabalhar. E já furei greves, mas não fiz greve para ir para a praia ou para a esplanada. E o que nunca tive capacidade para aturar são insultos dos grevistas aos que vão trabalhar, seja por liberdade de opção seja por necessidade.

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