quinta-feira, 7 de maio de 2015

Segunda Guerra Mundial vista por Putin e Merkel

Leonídeo Ferreira

Os russos prometem a maior parada militar na Praça Vermelha e até mostram imagens de um ultramoderno tanque em vésperas da celebração dos 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial. Os alemães desdobram-se em visitas a campos de concentração e locais de batalhas perdidas, repetindo os pedidos de desculpa. Para Vladimir Putin, presidente da Rússia, o 9 de maio de 1945 é um dia de orgulho pátrio; para Joachim Gauck, presidente alemão, e Angela Merkel, a chanceler, é a data que marca o fim do nazismo, uma era negra na história nacional.

É sabido que a história é escrita pelos vencedores e por isso as culpas franco-britânicas na ascensão do nazismo, por terem esmagado com pedidos de indemnizações a Alemanha do pós-Primeira Guerra, é tema só para académicos; tal como Estaline fazer um pacto com Hitler pouca memória deixou, tirando numa Polónia que em setembro de 1939 resistia em desespero aos tanques nazis quando sentiu aproximar-se, pelas costas, o Exército Vermelho; e ainda se podia falar de uma América que durante dois anos fingiu que a guerra mundial não era com ela.
Hitler foi derrotado e isso é consensual de celebrar. O nazismo era o mal absoluto, como o Holocausto prova. Havia uma dimensão racista que o distingue de outras ideologias do século XX e uma sanha exterminadora que o afasta de anteriores nacionalismos conquistadores europeus.
Se há dois povos que sofreram com essa megalomania de Hitler, um medíocre pintor e razoável soldado transformado em senhor da Europa, foram o soviético (russo, para simplificar), com 20 milhões de mortos, e o alemão, quem duvide que leia 'A Queda de Berlim', de Antony Beevor. Por isso é tão relevante o modo como se relacionam os líderes atuais com o fim da guerra.
Putin, na tribuna de honra do Kremlin, terá ao lado os números um chinês, norte-coreano e sérvio. Alinhando num boicote oficioso da NATO ao desfile por causa da guerra na Ucrânia, Merkel estará em Moscovo, mas no dia seguinte. E dia 7, o chefe da diplomacia alemã, Frank-Walter Steinmeier, irá a Volgogrado, a antiga Estalinegrado, palco de uma derrota nazi que terá contribuído tanto para inverter o rumo da guerra como o desembarque na Normandia.
Alexis Tsipras, também convidado por Putin, tem procurado relembrar a ocupação nazi para resolver a crise de hoje na Grécia. O primeiro-ministro ora exige compensações à Alemanha ora pede ajuda à Rússia.
Com surpresa, Merkel e sobretudo Gauck mostram nova compreensão pelas queixas gregas. Talvez a consciência pesada com que Berlim celebra o fim da guerra traga mais generosidade do que o orgulho patriótico vivido em Moscovo.

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