quarta-feira, 13 de maio de 2015

Tecnofavela

Por João Almeida Moreira

Depois de ganhar as eleições no Brasil há menos de 5 meses, Dilma Roussaef está hoje numa situação invulgar. Enormes manifestações exigem a sua demissão e a popularidade nas sondagens é baixíssima. Se as eleições fossem hoje, Dilma iria perder, e por muito.
Porque é que isto acontece? O colunista do Dinheiro Vivo João Almeida Moreira deu a sua resposta esta semana: é "puro nonsense". Ele apresenta três argumentos. Primeiro, Dilma não manda porque o Congresso está contra ela, logo mudar de presidente não faria diferença. Segundo, 83% das pessoas nas manifestações não votaram em Dilma e exigem o fim da corrupção no Brasil, que não se aplica só à presidente. Logo, a sua opinião não conta. Terceiro, e promovido a título do artigo, "O governo Dilma é de direita" pois tem tentado ajustar o orçamento com aumentos de impostos e cortes nos benefícios sociais.
Tenho dificuldade em compreender estes argumentos. Em relação ao primeiro, Dilma perdeu controlo do congresso em parte por causa dos sucessivos escândalos de corrupção, e em parte porque se associou a partidos pouco recomendáveis para ganhar as eleições. Culpá-la não é só legítimo, é mesmo apropriado.
O segundo argumento também é estranho. No Brasil (ou em Portugal) é normal que sejam as pessoas com opiniões mais extremas a ir para a rua. Mas, no caso de Dilma, as sondagens dizem que a maioria está mesmo contra ela. Para além disso, a quem senão ao presidente da república vamos pedir contas sobre a corrupção no regime político?
O terceiro argumento é mais interessante e mais revelador do que aconteceu no Brasil nos últimos 6 meses. Os números económicos são aterradores. A economia, que crescia bem já há 10 anos (com a excepção mundial de 2008) está em recessão. Ao contrário de Lula, Dilma intervém e muito na economia e nas instituições. Ao mesmo tempo, Dilma gasta tanto ou mais do que ele nos programas sociais, e ainda mais noutros gastos públicos, incluindo a Copa. Só em Janeiro foi claro que o défice público em 2014 foi 6,7% do PIB quando não chegava aos 2% quando Dilma tomou posse. Há hoje um défice primário no Brasil, o que já não acontecia há mais de uma década. Por isso, Dilma não teve opção senão equilibrar as contas públicas. No Brasil, como em Portugal, estranhamente, para muitos pagar as dívidas é "política de direita".
Uma explicação mais plausível para a contestação no Brasil é que quando Dilma foi reeleita, os eleitores não sabiam o verdadeiro estado do país. Os números dos últimos meses mostraram que a economia e as finanças públicas estão em muito pior estado do que se pensava. É bem sabido que o desempenho da economia nos 12 meses anteriores tem enorme influência no resultado das eleições. A situação política brasileira confirma este princípio. Dilma foi re-eleita com base num desempenho económico que era sofrível na altura mas que, soubemos apenas poucos meses depois, estava prestes a cair num precipício. Ela foi uma das mais sortudas candidatas de sempre.

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