quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O que a imprensa portuguesa ainda não compreendeu sobre a crise dos refugiados

Via Delito de opinião 
Em relação à crise de refugiados, a imprensa portuguesa continua a não perceber duas coisas: a rota e a quantidade. Hoje, na rádio, uma jornalista colocava na mesma frase as ideias contraditórias de que a fronteira húngara estava “fechada a sete chaves” e de que ontem "entraram na Hungria 10 mil pessoas". Aliás, nos últimos seis dias, entraram na Hungria mais de 40 mil migrantes, transportados das fronteiras croata e sérvia para campos de refugiados em território húngaro e para a fronteira austríaca. É portanto estranho que frases como aquela continuem a surgir nos noticiários: ou a fronteira não está fechada a sete chaves ou não entraram dez mil pessoas.

O arrastão mediático de indignações e superioridade moral impede que seja compreendida a vedação que o governo húngaro construiu na sua fronteira com a Sérvia. Ao travar a passagem a salto de pessoas indocumentadas (de acordo com a sua interpretação da lei internacional), o governo húngaro forçou a Sérvia a registar todos os refugiados. Aliás, Budapeste continua a dizer que a responsabilidade pelo registo cabe aos gregos. Embora tenha sido acusado de não cumprir o Acordo de Schengen ou de o ter posto em causa, o primeiro-ministro húngaro, o famigerado Viktor Orbán, pode ter evitado o colapso desse acordo.
O que a imprensa portuguesa ainda não compreendeu é que TODOS OS REFUGIADOS PASSAM PELA HUNGRIA E TODOS PASSAM PELA ÁUSTRIA; a rota balcânica tem de atravessar forçosamente aqueles dois países, só que agora os contrabandistas já não controlam o processo e os refugiados fizeram nos países anteriores o registo obrigatório, que inclui identificação da pessoa. O registo dá-lhes o direito a livre circulação no espaço Schengen. A Hungria está inclusivamente a comprar tendas resistentes ao frio intenso (isto não vai parar no Inverno) e é agora um país de trânsito semelhante à Áustria, embora mais pobre, mas a lidar diariamente com as mesmas enormes quantidades de migrantes, que carecem de tratamento, alimentação, transporte.
A outra incompreensão tem a ver com os números desta migração em larga escala. A Comissão Europeia já procedeu a duas distribuições de refugiados, somando 160 mil pessoas (Portugal receberá 4500), mas as chegadas diárias à Europa Central continuam a aumentar depressa e, em breve, podemos estar perante números muito superiores, não me admirava que fossem cinco e dez vezes maiores. Se temos uma quota de 3%, é fazer as contas. Os números alemães também já não batem certo: estão à espera de um milhão de pessoas; sendo que a imigração normal costuma ser de 400 mil anuais, então estamos a falar de 600 mil adicionais; ora, a quota alemã foi de apenas 35 mil; é muito evidente que isto é só o começo.

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