sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A Extrema-Esquerda a Fur(ar) de novo

 Via Portal da Loja

Há 40 anos, na sequência do Verão quente e nos últimos meses de 1975, Portugal assistiu a uma tentativa de golpe de Estado da esquerda comunista, com laivos revolucionários.

Nas eleições para a Assembleia Constituinte em 25 de Abril de 1975 e que o PS ganhou, sendo a segunda força mais votada o PPD, a esquerda comunista, incluindo o PCP e o MDP/CDE mais o cromo único da UDP, conquistaram 36 lugares de deputados. Incluindo o PS que teve 115 a conta subia para os 151, mais que suficiente para abafar os 96 da "direita" do PPD e do CDS.
Nessa altura o PS impôs-se à esquerda comunista e radical para se consagrar um regime democrático de tipo europeu ocidental.
Os tempos eram outros, havia dois blocos ideológicos que se combatiam e a opção por um significava a exclusão do outro. A "terceira via" não existia porque era também uma via mais enviesada para o comunismo.
O PS de então optou pela via europeia, democrática mas não abandonou os preconceitos ideológicos particularmente na Economia e por isso dali a poucos meses estávamos em plena bancarrota.

Porém, nesse ano de 1975, o fulgor revolucionário do Verão prolongou-se Outono adentro e chegou ao Verão seguinte nas expectativas constitucionais, com a aprovação da CRP de 1976, de ilusões utópicas dessa esquerda alargada que incluía o PS. A par de tal composição política de facto existia ainda a tutela militar, quase toda esquerdista, com muitos militares abertamente comunistas da extrema-esquerda, no COPCON e Conselho da Revolução.
Esse equilíbrio de forças não tem paralelo nos dias de hoje mas essa foi a História e hoje está a acontecer a Farsa, como é a repetição dessa História.


Vejamos como foi em alguns recortes de jornais.

Em finais de Outubro desse ano o legitimado governo de Pinheiro de Azevedo estava de rastos de "braços caídos" acossado pela esquerda comunista que chegou a cercar a Assembleia Constituinte.

A Flama de 10 de Outubro de 1975 mostrava na capa o que a Esquerda marxista pretendia para o nosso país: uma Frente de Unidade Revolucionária. Estão aí todos: desde o PCP ( Vítor Dias então do MDP/CDE que foi canibalizado pelo PCP) até ao actual BE ( Com Francisco Vale da LCI , o trostkismo já actuava em partido) até António Marciano da LUAR do pai das manas Mortágua, incluindo Pedro Goulart, um dos Livres do PRP-BR e Afonso de Barros do MES, para além de António Azul da FSP, uma excrescência radical e revolucionária cujo representante dizia que " O VI governo é um governo que não conseguirá governar porque disso o impedirá a classe operária". Tal como hoje, com palavras mais suaves e caras para a capa das revistas e cartazes, o objectivo é o mesmo: impedir o funcionamento da democracia burguesa. O resto virá por acréscimo, incluindo as bancarrotas, as bichas nos supermercados e a carência de géneros essenciais e dinheiro disponível nos bancos. O que aconteceu na Grécia serviu para alertar os gregos votantes, mas nem tanto.


Esta foto de conjunto devia trazer a seguinte legenda: aqui estão alguns indivíduos que justificaram que houvesse PIDE/DGS. São um perigo para qualquer país decente.

Em 14 de Novembro desse ano de 1975 O Jornal descrevia assim o ambiente social e político. No Porto, numa manifestação de apoio ao VI Governo que juntou o PPD e o PS que nessa altura sabia bem que campo tinha escolhido, gritou-se " Portugal sim, Rússia não" 



Na notícia em baixo da primeira página do O Jornal de 21 de Novembro de 1975 pode ler-se a constituição de uma associação saída da maior fraude política de sempre, em Portugal e que deu pelo nome de MES que era um grupelho de extrema-esquerda, autêntico viveiro de nulidades que depois vicejaram no PS e deram os nabos que a natureza permitiu.
Havia nomes sonantes que ainda hoje soam e ainda suspiram por uma esquerda utópica que nem eles sabem como seria. Jorge Sampaio, João Cravinho, José Manuel Galvão Teles, etc. Todos acabaram no seio do PS, assim como o Lourenço das patilhas revolucionárias que ainda hoje reclama revolução.



Portanto, o PREC ainda não tinha acabado e tal só sucedeu em 25 de Novembro de 1975. Antes disso as "tácticas" do PS e do PCP eram assim explicadas na edição de 14 de Novembro de O Jornal:

O PS era um partido cujo líder de então, Mário Soares apelava à oposição à "destruição do aparelho de Estado" a que assistia impotente, vendo isso o prelúdio de uma nova ditadura. Por isso se escrevia : " Ora, por muito que pese ao PPD, que não passa de um partido burguês liberal, a denominação de social-democracia cabe justamente, no léxico leninista do marxismo, ao projecto político de Mário Soares".
O PCP, para o articulista era quase o mesmo, uma vez que Álvaro Cunhal "não estava muito longe das ideias de Mário Soares", ao se recusar a considerar a revolução proletária como estando na ordem do dia e ao mesmo tempo defender o "Portugal democrático que caminha para o socialismo". E citava mesmo Álvaro Cunhal: " Não chegamos à Revolução Socialista, estamos na revolução democrática avançada".
Compare-se com as ideias actuais do PCP e conclua-se que não se alteraram um milímetro que fosse, incluindo mesmo o verbo avançar de "avante, camaradas".

Álvaro Cunhal dizia então que "queremos uma solução política, não queremos uma guerra civil", o que ia de encontro às ideias do...PS e até compreendia que não houvesse alternativa de esquerda ao VI governo...

Compreende-se assim que logo após os acontecimentos de 25 de Novembro de 1975 o PS tenha mudado de agulha e tenha feito o seguinte, segundo o Jornal de 5 de Dezembro desse ano, logo a seguir ao golpe.

Mário Soares mudara de táctica e deixou de atacar o PCP, reduzido a uma expressão eleitoral e sindical que sendo muito não fazia demasiada sombra ao PS. Ponto essencial dessa táctica: Mário Soares a dizer que o PPD era radical ao pretender afastar o PCP do governo, ao mesmo tempo que dizia que recusou formar governo antes de Pinheiro de Azevedo, só com o PCP e com exclusão do PPD. Ao mesmo tempo acusou o PCP de participar no golpe activamente, na sua preparação e lançamento e usando como ponta de lança a extrema-esquerda". Tal como hoje.


Álvaro Cunhal fingiu-se de morto, para explicar o inexplicável: chegou a dizer que a culoa do golpe foi do radicalismo mediático...




O PS e o PPD, tal como hoje estão na mesmíssima encruzilhada. O PS como charneira democrática e o PCP e PPD em campos opostos, manifestamente.


Quanto ao PCP a táctica de sempre e de agora: Revolução, sim, mas com calma e sobretudo liderada pelo Partido. É assim que Eduardo Prado Coelho explicava nas páginas de O Jornal de 12.12.1975:



Que não subsista qualquer dúvida que as palavras de Álvaro Cunhal não permitem: o PCP quer a Revolução e não pensa noutra coisa, mesmo agora. Basta ler os textos de O Militante que saem bimestralmente, os encómios às figuras gradas de outrora, do Verão Quente e depois e ao pensamento de Álvaro Cunha que continua a ser o guia espiritual de sempre.
Porém, fazer a Revolução para o PCP é tarefa de fases e nunca de aventureirismos. Actualmente, a fase é de entrar para um governo, como aconteceu no ano de 1975. Neste caso ao lado do PS, à semelhança do que aconteceu em 1975. Porém, com uma diferença de vulto: na época também estava no governo o PPD.
Agora ficará de fora, se o PS aceitar...
Ora refrescando a memória de quem a perdeu e mostrando a quem nunca se deu conta, o que é que sucedeu a Portugal com estas tácticas do PS e do PCP?


E uma outra coisa: porque é que o PS se comportou assim e agora assado? Na edição de 20 de Fevereiro de 1976, o mesmo o Jornal explicava o que se tinha passado com Mário Soares: percebeu que não queria fazer parte do Bloco de Leste, estando na parte mais ocidental da Europa. Foi apenas isso. Como agora tal receio é fútil temos o actual líder António Costa a cometer erros funestos por simples estupidez política.
Na altura, Mário Soares foi chamado à razão pelos americanos, por Kissinger em particular que lhe disse que era ingénuo ao admitir tantas liberdades aos comunistas e que era um...Kerenski. Mário Soares terá ripostado que não queria ser tal e Kissinger retorquiu-lhe que Kerenski também não queria...




Isto que foi logo visível no Natal de 1975: o espectro da bancarrota, como mostra bem O Jornal de 19 de Dezembro de 1975:






Na semana seguinte, de Natal era o mesmo assunto que se tornava primeira página:

Há quem pense que estes anos foram há muitos anos e os tempos são outros. E são. O problema é que as ideias destes comunistas não mudaram uma linha dos respectivos programas. Continuam a pensar nos mesmos moldes, a achar que a exploração capitalista é para acabar, expropriando os meios de produção e o capital aos capitalistas.
Alguém tem dúvidas disto?
Leiam, por favor. Voltem a ler e reflictam nisto que se pode ler...porque o pensamento básico é mesmo este e é o de sempre.

Dizia assim Louçã, sobre a essência ideológica do BE, depois da pergunta "Em que é que o BE acredita?":
"Numa esquerda socialista. (...) Para nós o socialismo é a rejeição de um modelo assente na desigualdade social e na exploração, e é ao mesmo tempo uma rejeição do que foi o modelo da União Soviética ou é o modelo da China. Não podemos aceitar que um projecto socialista seja menos democrático que a "democracia burguesa" ou rejeite o sistema pluripartidário. Não pode haver socialismo com um partido político único, não pode haver socialismo com uma polícia política, não pode haver socialismo com censura. O que se passa na China, desse ponto de vista, é assustador para a esquerda. (...) Agora, a "esquerda socialista" refere-se mais à história da confrontação, ou de alternativa ao capitalismo existente. Por isso o socialismo é, para nós, uma contra-afirmação de um projecto distinto. Mas, nesse sentido, só pode ser uma estrutura democrática."

O que dizia Louçã em 2005 a este propósito? Isto:
"O BE é um movimento socialista ( diferenciado da noção social-democrata, entenda-se -nota minha) e desse ponto de vista pretende uma revolução profunda na sociedade portuguesa. O socialismo é uma crítica profunda que pretende substituir o capitalismo por uma forma de democracia social. A diferença é que o socialismo foi visto, por causa da experiência soviética, como a estatização de todas as relações sociais. E isso é inaceitável. Uma é que os meios de produção fundamentais e de regulação da vida económica sejam democratizados ( atenção que o termo não tem equivalente semântico no ocidente e significa colectivização-nota minha) em igualdade de oportunidade pelas pessoas. Outra é que a arte, a cultura e as escolhas de vida possam ser impostas por um Estado ( é esta a denúncia mais grave contra as posições ideológicas do PCP). (...) É preciso partir muita pedra e em Portugal é difícil. Custa mas temos de o fazer com convicção."
Em 1975, numa herdade qualquer do Alentejo profundo, um pequeno agricultor não aceitou dar um dos seus instrumentos de trabalho à cooperativa que a reclamava. " Se a dou fico sem ela"...e o outro: "não, camarada, passa a ser de todos nós e tua também". O tipo coçava a cabeça e repetia: "Não...fico sem ela". Esta pequena anedota verdadeira que se pode ver num filme à solta sobre a herdade da Torre Bela é um pequeno exemplo da utopia que nos querem novamente mostrar como sendo a solução para os problemas da economia.
Toda a esquerda comunista acredita nessa balela. E a socialista, por simpatia também acha bem.

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