sábado, 31 de outubro de 2015

Almoço com Pacheco Pereira




O almoço está marcado para as 13.00 de quarta-feira. Cavaco acabava de receber os partidos com assento parlamentar - no dia seguinte comunicaria ao país a decisão de indigitar Passos Coelho primeiro-ministro, desferindo um violento ataque a PCP e Bloco. Quando chego, à queima, José Pacheco Pereira já está sentado na esplanada do Sabor & Arte, à esquerda de quem desce ao Páteo Bagatela. "Sou muito pontual", diz-me em jeito de provocação. O historiador, colunista e comentador político é cliente habitual. Ajuda-me por isso a ultrapassar a indecisão de uma ementa tentadora que conhece de trás para diante. Sigo a sugestão das lulas à lagareiro. Pacheco opta pela alheira de caça. 
Hesito uns segundos se devo começar pela pergunta planeada: porque é que insiste em ser militante do PSD se, nos últimos anos, não faz outra coisa senão fazer-lhe oposição? "É uma pergunta que já esperava e não é fácil responder. Ainda tenho uma esperança, cada vez mais vaga, de que não tendo mudado fundamentalmente o programa, havendo, apesar de tudo, uma tradição reformista e de centro, num partido cuja política não é neste momento reformista ou de centro, mas sim de direita; havendo um património histórico, que vem desde Sá Carneiro, que situa claramente o PSD numa posição de charneira entre o centro-esquerda e o centro-direita, que sempre negou explicitamente que o PSD fosse um partido de direita e conhecendo eu muitos militantes que não são do aparelho ou eleitores do PSD que estão muito preocupados com esta evolução recente, mantenho a esperança de uma mudança de política. Pode ser que eu a perca mas ainda tenho". A mágoa e o desencanto são visíveis nos olhos de Pacheco Pereira e percetíveis à medida que as palavras avançam. "Esta direção tem muitos aspetos opacos: a maioria dos militantes não tem consciência de que uma parte importante do aparelho está ligada à maçonaria. As pessoas são livres de fazer o que entenderem, mas no PSD isto é contranatura. Porque o PSD, até pela forma como se formou e se desenvolveu, foi um partido da tradição antimaçónica. O facto de hoje, com a ignorância real de muitos militantes e eleitores, na direção do partido, nos cargos mais relevantes, nas estruturas distritais, não direi todos, haver uma parte significativa dos seus dirigentes na maçonaria, significa que alguma coisa mudou. Até porque essa maçonaria funciona muito com ligação à maçonaria dos interesses, àquela que mais do que uma tradição filosófica é uma rede de interesses e de organização do poder."
Sobre Passos, diz que no plano pessoal lhe é indiferente. Mas a política que defende e desenvolve não. Não vacila em considerar traição à matriz social-democrata e de centro, "sem sombra de dúvida", a condução dos últimos quatro anos. "Basta ler os textos. Por exemplo, o desprezo pelo mundo do trabalho, com uma linguagem em que o sucesso da economia se deve às empresas e não aos trabalhadores, a forma como trataram a legislação laboral, como permitiram um enorme desequilíbrio nas relações laborais, como dividiram os portugueses entre empreendedores e piegas, velhos e novos; o desprezo pelos velhos, a ideia completamente absurda e perigosa que a JSD avançou da justiça geracional. A ideia de justiça geracional é a de que os pais deles têm de ganhar menos para os filhos ganharem mais ou de perder na reforma para eles a terem. Isto é uma ideia simplista e errada, uma espécie de neomalthusianismo torto." Ou seja, o social-democrata Pacheco Pereira não se revê num partido e num governo que são ideologicamente de direita. 
E depois há atitudes e posicionamentos que não se lhe apagam da memória. "Não me esqueço da Manuela Ferreira Leite, que teve a coragem de ser a primeira a identificar o que estava errado na governação de Sócrates numa altura em que Passos Coelho e muitos dos seus amigos defendiam posições políticas muito próximas dele e o protegeram. Sei do que falo. Na questão dos inquéritos sobre a interferência na comunicação social, em que havia elementos suficientes para que a Assembleia o condenasse e a direção do PSD o impediu. Tenho dito muito pouca coisa porque acho que bater hoje no Sócrates é fácil. Eu bati quando era difícil e sei muito bem o quanto estive sozinho. Como esteve a Manuela Ferreira Leite. E sei muito bem onde estavam o Relvas, o Passos Coelho, o Ângelo Correia e onde estava muita gente do PSD que rondava ali o mundo dos negócios e que também queria grandes obras públicas, investimento público, e que achava que a Manuela Ferreira Leite ia cortar isso tudo. A história é complicada, não é unívoca, e tenho a esperança de que possa ser retificada ou minimizada e isto seja um período negro."
Foi por tudo isto que, nos últimos quatro anos, a política e a sociedade portuguesa se radicalizaram criando o que Pacheco Pereira designa como os deserdados do centro. Não tem por isso dúvidas de que, mais cedo ou mais tarde, haverá um recentramento "dentro ou fora do PSD". Até lá continuará a dizer o que pensa, doa a quem doer. "Tenho as quotas em dia. Sou militante de pleno direito. Presumo que de vez em quando há uns tipos que me querem expulsar". E porque é que a expulsão ainda não aconteceu, mesmo assumindo nas eleições de 4 de outubro que "seja qual for a forma como votei ou não votei, mas eu votei, o meu voto não foi para a coligação"? "Primeiro porque nunca violei os estatutos, não faço parte de listas de outro partido, não aceito lugares noutro partido, não mudei de partido, ninguém me vê a apoiar eleitoralmente outro partido. Depois, o que digo é inteiramente compatível com o programa do PSD - o que Passos Coelho e muita gente da direção dizem é que não é. Não ataco a propriedade privada, não tenho nenhum radicalismo contra empresas ou banca, não defendo nacionalizações, nada disso. Coloco-me num terreno que é, de facto, uma espécie em vias de extinção: o centro, centro-esquerda nalguns casos, centro-direita noutros". Mas haverá outro motivo: "Posso explicar por A + B e em detalhe como é que em relação a uma direção legitimamente eleita do PSD foi organizada uma oposição que foi muito para além da opinião. Porque a minha oposição é de opinião. Não organizei uma fração dentro do partido e Passos Coelho organizou. Estamos a falar da oposição a Ferreira Leite, que não se limitou a apoiar Sócrates, a atacar sempre que podia a direção do seu próprio partido - em termos de liberdade de expressão pode ser permitido, mas outra coisa é organizar estruturas paralelas cujos financiamentos são em grande parte desconhecidos, que atuavam com grande riqueza de meios e de forma paralela em relação a instâncias nacionais e internacionais, em relação aos embaixadores, com encontros organizados nas Câmaras de Comércio sob a égide de Ângelo Correia".
Longe de ter sido apanhado de surpresa pelo que está a acontecer na ressaca das legislativas, Pacheco Pereira cedo percebeu que era verosímil a vitória da coligação. "Desde que António Costa saiu da Quadratura do Círculo, no último programa, disse-lhe que ou ele era um bom líder da oposição ou se se armava numa espécie de primeiro-ministro avant la lettre arriscava-se a não o ser. E ele foi péssimo líder da oposição". Porquê? "Porque não se zangou. Não se pode dizer que tudo é muito grave e não ter uma atitude subjetiva, pessoal, face à gravidade do que está a acontecer. Uma das razões porque há empatia e simpatia e admito também que antipatia de muita gente em relação àquilo que digo e escrevo tem a ver com o facto de as pessoas perceberem que não me é indiferente a situação do país. Isso gera fenómenos de empatia. Ora, o Costa e o BE diziam que o país estava péssimo, que as pessoas estavam a ser prejudicadas, estavam a perder o emprego, a empobrecer, as crianças estavam a empobrecer mas andavam numa espécie de jogos de salão. Aquele período em que o António Costa devia ser de facto o líder da oposição foi desbaratado com a ideia de que já era primeiro-ministro".
Aqui chegados e com negociações à esquerda em curso, acredita na "viabilidade formal" de um acordo à esquerda. Coisa diferente é saber se um governo desta natureza terá condições - há coisas a favor, mas há muitas contra. "É a favor o facto de ter havido uma maioria muito significativa que votou contra este governo, portanto que deseja outra coisa." Não serão todos a desejar um governo de esquerda, "mas estou convencido que uma maioria não quer mais estes no governo. Tem a favor o desbloqueamento político que se deu com o diálogo à esquerda. Contra? Em primeiro lugar, não é politicamente tão legítimo como o governo PAF. É certo que tem um acrescento de legitimação se o governo da PAF cair na Assembleia. Sou a favor de que o Presidente indigite Passos como primeiro-ministro. Não é perda de tempo, ele tem direito a ser indigitado porque a coligação ganhou as eleições. Não tem direito é a exigir que o PS lhe permita a passagem do governo. As pessoas têm hoje uma série de rodriguinhos em política, dizem que a instabilidade é má. Às vezes é, outras não. Às vezes não se muda sem instabilidade. "As coligações negativas são más" acaba por ser uma variação do "não há alternativa" e depois, se a coligação negativa permitir produzir um governo com alguma estabilidade pode haver uma certa recuperação de legitimidade pela governação. Costa não está condenado a passar dois, três, quatro anos sob a sombra da deslegitimação do seu início. Mas o governo tem de ter sucesso. Se se combinar uma deslegitimação à cabeça com um governo com pouco sucesso, que caia rapidamente, aí há um terramoto em cima do PS, de Costa em primeiro lugar, e da esquerda". E será Costa melhor chefe de governo do que foi líder da oposição? "Admito que possa ser um bom primeiro-ministro. Coisa aliás que não é muito difícil depois da experiência dos últimos quatro anos".
Sobre o clamor e as ameaças ao regime democrático que resultam da aproximação ao poder de bloquistas e comunistas, Pacheco Pereira sorri e diz que o medo não faz sentido. "É evidente que há muitos interesses económicos, sociais postos em causa por um governo deste género. E interesses muito poderosos, que foram o grande sustentáculo deste governo, que apoiaram e financiaram a PAF, apoiam uma parte importante da comunicação social, nalguns casos até economicamente, e que criaram lóbis e grupos que nunca tiveram bónus tão grande como nos últimos quatro anos. Agora, quer alguém que tenha jogado melhor o jogo democrático do que o PC? Quer alguém que tenha jogado melhor o jogo parlamentar do que o BE? As únicas pessoas que não jogaram o jogo constitucional nos últimos anos foram as da coligação. Quem mais jogou contra a democracia, rompendo contratos, criando um Estado de má-fé e governando contra a Constituição foi a coligação. O PC não me parece que vá para o governo defender a ditadura do proletariado que aliás abandonou formalmente em 75. Mas ninguém pense que é um acordo máximo, é o mínimo - o que não quer dizer que não funcione. E tem de implicar o grosso dos orçamentos e alguma estabilidade governativa, para mais que um orçamento. E isso tem de ficar tudo no papel para vantagem de todos". Seja como for, são tempos históricos e "nada será como dantes".
Aos que insinuam que Pacheco está disponível para um lugar num eventual governo do "amigo" Costa, a resposta está pronta: "O António Costa conhece-me o suficiente para saber que não quero ser ministro. Estou muito bem a tratar de arquivos, de papéis e a escrever livros. Não tenho nenhuma especial motivação para ser outra coisa".
Os arquivos de que fala são a menina dos seus olhos: 5 km de estantes com mais de 200 mil livros, 25 mil títulos de periódicos e um acervo infindável de objetos que contam a história política contemporânea de Portugal. O seu "país das maravilhas". Orgulha-se de ter constru-ído este património sem um cêntimo de apoio estatal. E todos os dias entram coisas novas. A última são dois discos com o registo sonoro de 123 horas de reuniões da comissão de trabalhadores da FIL em 1975. "É um retrato do PREC como não conheço outro. Já ouvi alguns fragmentos. Sabe o que é ouvir as vozes e as discussões?", pergunta sem conter a emoção. Fico desconcertado. Atrás do olhar duro, da alma revolucionária e do discurso mordaz, corrosivo, há um homem capaz de se apaixonar pela história. Um dia, se a lei mudar, há de fazer uma fundação com o seu nome para que todo o espólio seja público. "A legislação está feita para que só possam existir grandes fundações e dá poderes discricionários ao governo. Não quero que um primeiro-ministro possa alterar os objetivos da fundação". A alternativa será uma associação cultural sem fins lucrativos, mas é uma solução coxa porque permite o uso dos bens pelo Estado mas não confere direitos de propriedade.
Olho para o relógio. As horas passaram sem se dar por isso. Peço a conta. "Tem mesmo de publicar?", pergunta deixando escapar um sorriso. Que sim, digo-lhe. Faz parte das regras. "Então ponha lá que é sob protesto do Pacheco Pereira que entende que o que come é da esfera privada". De saída, uma eleitora da PAF já entradota abeira-se da mesa. "Oh doutor, o que acha disto? Não quero os comunas". Diz-lhe que nada receie, que já não são o que eram. E que um dia a convida para almoçar e falar de política.

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