sexta-feira, 9 de outubro de 2015

As «asneiras» de cavaco

Rui A. in Blasfémias
Anda meio mundo agastado com Cavaco Silva, mas, muito francamente, não me lembro de o ter visto tão bem na sua longa carreira política de mais de trinta anos. Na verdade, pelo menos desde a crise do «irrevogável», que Cavaco tem alertado o país e os partidos para o óbvio: que o estado lastimável de Portugal não se resolve com duas tretas, nem sem um consenso durável entre os partidos que têm responsabilidades governativas neste regime: PSD, PS e CDS. Como é que isto é feito, não cabe a Cavaco, no contexto actual dos seus poderes constitucionais, dizê-lo, podendo, quando muito, aconselhar os responsáveis políticos. Ainda assim, o homem fez mais do que lhe competia, sugerindo, já nesse distante mês de Julho em que Paulo Portas deitou fogo ao circo, um pacto com o PS, com o qual praticamente garantia a este partido o regresso ao poder no prazo de um ano, assim ele garantisse as condições de governabilidade durante esse período de tempo. Seguro, que não teve coragem para enfrentar a gerontocracia do PS, encolheu-se e acabou assado no espeto por aqueles a quem temeu enfrentar. Hoje, se o PS não está no governo, só poderá queixar-se de si mesmo. E poderá até ver-se afastado do governo por muitos e bons anos. Bastar-lhe-à, para isso, prolongar, por mais umas semanas, os esponsais com o Bloco e a CDU, sem necessidade de contrair matrimónio ou sequer de ir ao castigo, e rebentar novamente com as (frágeis) contas públicas. Dentro do partido haverá quem trate do assunto. E, cá por fora, também.
Quem perde, ganha?
Um Governo PS-CDU-BE tem toda a legitimidade constitucional. Se os partidos encontrarem pontos comuns fundamentais e estabelecerem um acordo podem construir uma solução estável, formando um Governo apoiado por uma maioria absoluta no Parlamento.

Não é a questão legal que me atormenta. É a questão política, moral até, se quiserem. Se o PS tivesse ganho as eleições, acharia natural, até desejável. Mas não ganhou. A solução acima descrita seria encabeçada por um candidato que PERDEU as eleições. É uma perversão do espírito democrático. Num país com elevada abstenção e um crescente divórcio entre as pessoas e a política, a violação de um princípio tão básico (quem ganha governa) tem uma aparência tão errada, tão injusta, que não poderá deixar de provocar consequências graves na percepção democrática, política, social e moral dos cidadãos comuns. 

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