terça-feira, 13 de outubro de 2015

De pé, ó vítimas de Costa

Inês Teotónio Pereira
A minha família está nas mãos de António Costa. Não é bom. Não é nada bom estar nas mãos de quem perdeu o jogo e ameaça furar a bola porque não quer ir para a baliza 
Os meus filhos começaram ontem a fazer as malas. Puseram nas mochilas os brinquedos essenciais e estão prontos para sair do país. A culpa é minha: “Mãe, o que é que acontece se os comunistas ou o BE ganharem as eleições?”, “Emigramos… Pedimos o estatuto de refugiados políticos e emigramos”. Na noite das eleições, senti alguma desilusão: “Como o PàF ganhou já não emigramos, pois não?”. Pois. Eles ambicionam emigrar para andarem de avião e dormirem num hotel. Mas, tendo em conta os resultados eleitorais, lá se foram os planos pelo cano abaixo. Afinal, têm mesmo de estudar, de manter a rotina e nada de aviões ou de aventuras novas: o PàF teve mais votos.

A semana passou com serenidade. Até que eles viram as notícias (erro, eu sei). PCP com António Costa e não impõe condições. BE disposto a formar governo com PS. Galamba (o António ou o João, é irrelevante) membros do governo (onde fôr). Catarina Martins, Ministra da Economia. Miguel Tiago na Administração Interna. Mário Nogueira na Educação. Mortágua nas Finanças e a irmã no BdP. Maioria de esquerda a governar Portugal. Costa primeiro-ministro. Ora, como pessoas sensatas que são, os meus filhos fizeram as malas.

Anteciparam o caos: gritos na televisão, empresas a fechar, os juros da dívida a disparar, investimento em queda, greves, pensões em atraso, FMI, Banco Central e Comissão Europeia ameaçam uma data de coisas se o Tratado Orçamental não for cumprido, Ricardo não sei quê Mamede substitui Marcelo nos comentários de Domingo. Socialistas do PS reúnem-se num sótão para reconquistarem o partido.
Tudo isto aconteceu na semana em que se dá o debate do ano na televisão portuguesa entre Pedro Guerra e Bruno de Carvalho. As instituições estão a ruir, sentimos. Até o futebol. Calma, pedi eu às hostes. Não ligaram: “Podemos ter um cão na casa nova?”; “Posso dormir sozinho?”; “Podemos não ir para a China?”; “A avó fica cá ou vem também?”; “Como é que fazemos com as bicicletas?”. Dúvidas, muitas dúvidas. Respondi a tudo mas não fui conclusiva em relação ao cão. Entretanto, também eu vi as notícias.
Afinal, é mesmo a sério: PCP não impõe condições para ir para o governo, BE não quer perder a oportunidade de contribuir para o caos e Costa está mais preocupado com a sua sobrevivência do que com o país, com o PS ou com os portugueses. Antes primeiro-ministro por um ano do que secretário-geral derrotado por seis meses. Esperem, esperem: Cavaco Silva quer falar com Costa segunda-feira. Já ninguém me ouviu. A excitação é tal que por eles até o PAN devia ser ouvido para tentar encontrar uma solução governativa estável para o país. Era mais um contributo para reforçar a opção de emigração familiar.

O ambiente em minha casa é, por tudo isto, caótico. Como resolver esta encruzilhada? Pergunto eu. A resposta é avassaladora: estamos nas mãos de António Costa. Sim, da mesma forma que o Sporting está nas mãos de Bruno de Carvalho, a minha família está nas mãos de António Costa. Não é bom. Não é nada bom estar nas mãos de quem perdeu o jogo e ameaça furar a bola porque não quer ir para a baliza. Não sei se arrumo as mochilas que se acumulam à porta de casa ou se me vá abastecer de enlatados.
Não sei se Cavaco Silva está solidário com a minha situação ou não. Não sei quem é que no PS me pode ajudar. Não sei, meu Deus, como obrigar os meus filhos estudar enquanto nada disto se define. E o pior é que os testes começam já para a semana…

Escreve ao sábado

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