sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Identidade

Joana Petiz 
Há três anos, vi alguém - que não tendo nascido na minha família não deixa de o ser - mudar-se para Moçambique. Os nossos encontros passaram de quase diários a bienais, mas vamo-nos mantendo regularmente a par de novidades e trivialidades - cortesia das novas tecnologias. Tenho outros amigos que vivem longe - em Bona, em Bruxelas, em Lyon, na Califórnia. Outros que foram e regressaram - de São Paulo, de Amesterdão. No ano passado, 110 mil portugueses saíram de Portugal. Melhores perspetivas de emprego, procura de uma vida melhor e a expectativa de conseguir dar as melhores oportunidades possíveis aos filhos levaram-nos a deixar a família, os amigos, a criar novos laços longe de casa e a arriscar a que os pequenos ganhem raízes bem longe das nossas. A decisão é muitas vezes motivada pela pior razão: a noção de que no país onde se nasceu todas as portas se fecharam. Mas a emigração não é um exclusivo nosso. No mesmo ano de 2014, 318 mil britânicos - três vezes mais do que os portugueses que emigraram - trocaram o seu país por outros lugares da Europa ou foram mais longe, para os Estados Unidos, por exemplo, ou para a Ásia mais florescente. Outros 427 mil deixaram a Alemanha só nos primeiros seis meses. Ali, no seu país, sentiam-se estagnados, ignorados, desvalorizados. Mudar tão radicalmente de vida não é uma decisão que se tome de ânimo leve, mas para um americano, por exemplo, a nossa infelicidade sempre que vemos um amigo ou familiar partir é simplesmente incompreensível. Claro que nós, como os britânicos ou os alemães, não vivemos num país do tamanho de um continente nem temos a experiência de fazer milhares de quilómetros para algo tão simples como ir para a faculdade. Mas uma das bandeiras da Comunidade Europeia foi precisamente a livre circulação de pessoas. E não se criou simplesmente para nos facilitar a vida quando queremos ir de férias. Por muito que hoje nos custe, numa Europa em crise, os fluxos de migração serão cada vez mais frequentes - sobretudo dentro do Velho Continente. Eventualmente, tornar-se-ão tão naturais como hoje para muitos de nós o que é natural é nascer, crescer e morrer no mesmo sítio. As convulsões que vivemos podem dar-nos o que ainda não conseguimos ter: uma identidade europeia.

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