sábado, 24 de outubro de 2015

"Investidas", "caçoadas" e "troças"

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Hoje têm o nome de "praxes", mas até ao século XVIII fala-se de "investidas". Os rituais destinados aos novatos da Universidade de Coimbra foram muitas vezes marcados por alguma dose de violência, várias vezes postos em causa e até proibidos. Em 1727, por exemplo, D. João V interditou totalmente qualquer "investida". Alegou o rei que as actividades, apesar de serem muito antigas na universidade, se haviam tornado cada vez mais bárbaras.A morte de um estudante, no ano anterior, poderá ter sido a última gota. E o monarca deliberou: "Hey por bem e mando que todo e qualquer estudante que por obra ou palavra ofender a outro com o pretexto de novato, ainda que seja levemente, lhe sejam riscados os cursos."Teófilo de Braga é um dos que dão conta de como muitos estudantes não iam à universidade, a não ser nos exames, para escapar "à fúria" dos colegas.

"Enquanto o estudante vivia em Coimbra, envolvido ou exposto às sangrentas investidas, tinha de andar armado até aos dentes."Segundo a definição da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, a praxe académica é uma reminiscência dos tempos em que existia, em Coimbra, uma jurisdição especial, chamada "foro académico". Ou seja, os estudantes e professores da universidade não respondiam perante as autoridades ordinárias. Assim foi até 1834. As regras eram apertadas nesses tempos. Nenhum estudante podia sair à rua depois das seis ou sete da tarde, conforme fosse Inverno ou Verão, sob pena de ser apanhado pela Polícia Académica e levado para a cadeia da universidade. Com o fim do foro, os estudantes de Coimbra decidem fazer, só para os caloiros, uma adaptação especial desta tradição. Organizam-se e, após o toque do sino da torre da universidade, a que ainda chamam "cabra", vão pela cidade à procura dos infractores.Já no século XIX, deixa de falar-se em "investida". As práticas relativas aos caloiros começam a designar-se frequentemente por "caçoada" e "troça". Na segunda metade do século XIX, novos episódios violentos são relatados. Os novatos são "tosquiados", obrigados a cantar e a dançar e envolvem-se em cenas de pancadaria com os mais velhos. Em 1873, um estudante, depois de ver o cabelo cortado à força, fere mortalmente um dos agressores. Com a proclamação da República, a praxe quase desaparece. A "cabra" deixa de ser ouvida na cidade. Mas muitos sentem-lhe a falta. Em 1916, "uma representação assinada por 825 estudantes" pede a restauração das praxes académicas. Estala o debate. "Abaixo as praxes ridículas e inoportunas!... Fora com o micróbio da reacção que ameaça insinuar-se na sociedade republicana corroendo-lhe o feitio e enegrecendo-lhe o futuro!", lê-se num artigo de 14 de Dezembro de 1916 publicado no bissemanário "A Resistência". Os movimentos pró-praxe não desistem. As práticas renascem em 1919, para voltarem a ser abolidas apenas em 1960, com a crise académica. A eliminação da "sanção de unhas", do recolher obrigatório e do "rapanço" foi progressiva. A praxe era vista como "uma prática de pura alienação".Quatro anos depois do 25 de Abril, os estudantes voltam a bater-se para que a tradição seja recuperada. E conta-se que, a 2 de Junho de 1979, milhares de pessoas terão aplaudido, na Baixa coimbrã, o aparecimento de estudantes de capa e batina. É o ano do regresso da Queima das Fitas e das praxes. Então, tal como agora, as opiniões continuaram divergentes: o que falta são praxes iguais às do passado, era melhor que fossem diferentes ou mais valia acabar com elas? A questão deixou de colocar-se apenas em Coimbra, cidade berço desta tradição. Com a disseminação das praxes, a partir da década de 80, um pouco por todo o país, também o debate se revestiu cada vez mais de carácter nacional.Bibliografia consultada: Lamy, Alberto Sousa; "A Academia de Coimbra - 1537-1990", Edição Rei dos Livros, 1990

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