segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Kremlin "brinca" com separatismos no Ocidente

José Milhazes
É sabido que o Presidente russo Vladimir Putin não olha a meios para atingir fins, mas, no caso do separatismo em casa alheia, o feitiço pode virar-se contra o feiticeiro.

No dia 20 de Setembro, no meio de um clima de secretismo, reuniram-se em Moscovo organizações separatistas dos mais longínquos cantos do mundo: Estados Unidos, Espanha, Saara Ocidental, Irlanda,etc.

Isto não teria grande interesse se a propaganda do separatismo não fosse punida por lei na Rússia e se a reunião não tivesse sido financiada pelo Kremlin.
Este encontro de separatistas foi organizado pelo “Movimento Anti-globalista da Rússia”, financiado pelo Kremlin e que tem entre os seus membros honorários Bashar Assad, Presidente da Síria, e Mahmud Ahmadinejad, ex-Presidente do Irão. O lema do encontro foi: “Diálogo das Nações. Direito dos Povos à Autodeterminação e Construção de um Mundo Multipolar”.
Os Estados Unidos são o país “mais representado” com Texas Nationalist Movement,Nation of Hawaiʻi e um movimento pela independência de Porto Rico. A Catalunha está presente com a coligação Junts pel Sí, a Irlanda com o Siin Féin. Ao todo, estiveram presentes representantes de nove países.
Escusado será dizer que entre os delegados não havia qualquer representante de chechenos, daguestaneses, tártaros ou outros povos da Federação da Rússia que possam alimentar sonhos de autonomia. Talvez para não irritar os maiores aliados de Moscovo: Síria e China, ficaram de fora os curdos e os tibetanos.
Os cidadãos da Federação da Rússia que façam apelos públicos que visem a violação da integridade territorial podem ser condebados a 4 ou 5 anos de prisão. Por exemplo, no passado dia 15 de Setembro, começou a ser julgada Daria Poliudova, acusada de “separatismo” e “extremismo” por ter tentado organizar uma “Marcha pela Federalização de Kuban”, região do Sul da Rússia.
Por isso, este encontro “anti-globalista” não passa de mais uma tentativa de apoiar focos de separatismo no terreno dos potenciais adversários. À excepção do caso do Saara Ocidental (onde penso não se tratar de separatismo, mas de uma luta por um território ocupado por países vizinhos que é reconhecida por muitos países e organizações), os restantes movimentos seccionistas encontram-se na Europa e nos Estados Unidos. Porém, tendo em linha de conta o que aconteceu com a União Soviética, num país multinacional como a Federação da Rússia, onde vivem mais de cem povos e etnias, o feitiço pode-se virar para o feiticeiro.
Vladimir Putin parece convencido de que controla o país que dirige, mas isso pode ser uma ilusão. Na semana passada, a polícia russa deteve praticamente toda a direcção da República dos Komi, no Norte da Rússia, por “crime organizado” e “corrupção”. E quando for preciso pôr atrás das grades dirigentes regionais como Ramzan Kadirov, líder da Chechénia?
O Kremlin gosta de criticar a política de “dois pesos e duas medidas”, mas, neste caso, realiza-a claramente. No Direito Internacional, existem dois princípios que estão em permanente choque: o direito dos povos à autodeterminação e o direito à inviolabilidade de fronteiras. Putin reconhece o primeiro para os outros e o segundo para si.
P.S. Para os leitores que irão comentar que os países ocidentais fazem o mesmo, respondo: os erros dos outros devem servir para aprender e não para se repetir.

Sem comentários: